Videos do Mito

Se a e-art de Mito corresponde ao alargamento da sua pesquisa plástica ao campo da animação e metamorfose dos valores estruturais da imagem pictórica e à prevalência dos valores de intensificação dramática e narrativa do suporte de representação - e desterritori-alização - dos valores plásticos, a sua pesquisa efectuada em suporte vídeo indica um movimento de radicalização e abertura de toda a sua proposta criativa.

Desenvolvendo uma abordagem da criação plástica centrada no gesto de criar mundos, encenando universos radicados num trabalho de memorização e invenção de referentes culturais e vivênciais, a sua aproximação à estrutura da imagem fílmica faz-se, inicialmente, recorrendo à própria estruturação de uma visualidade primária.

O autor questiona referentes e potenciais perceptivos ao jogar, animando e antropomorfizando as figuras geométricas de uma gestalt estruturante da nossa percepção do mundo. A simulação de anima inscreve-se, assim sendo, sobre os arquétipos resultantes do próprio agir manual, dotando forma de uma utópica intencionalidade viva. E, se cada traço virtualmente esboçado a partir do desenho se transfigurava em vocação de plasma na sua obra digital, esse mesmo plano é agora repensado mediante o recurso à própria noção de espectáculo - ou cinematografia - de coordenadas espacio-temporais elásticas e variáveis. Num primeiro tempo, é o próprio plano de representação que se torna suporte matérico de uma nova escrita visual: o filme como tela de um mapa imagético do (in)consciente e dos contextos de vida.

Mas, se a fotografia de Mito correspondeu a uma primeira etapa de congelamento temporal e espacial da imagem e dos objectos, ou rostos, nela contidos, essa mesma suspensão é agora dotada de uma outra função: ela surge potenciada enquanto momento que antecede a explosão do fulgor rítmico e plástico da luz. Ela indicia - porque em si contém - a promessa de ultrapassagem de uma imagem que em/a si mesma se excede, numa nova atitude discursiva. Cada percepção visual torna-se observável em directo paralelo "falado" com a vida. Trata-se, assim, de uma atitude experimental que corresponde a uma outra decisão operada por dentro dos valores discursivos e re-presentativos de uma imagem que, definitivamente, se afirma como instância processual e se faz verbo.

Reunindo os pressupostos do registo fotográfico e da arte digital, a imagem vídeo desencadeia o questionar do estatuto e da função da imagem e objectos nela representados: exercita em nós a sensação de presságio, criando fugacidade e reactualizando o gesto de surrealizar - ou sobre-realizar - por travelling e deslocamento. Através de novos quadros de encenação de mundos, damos entrada no próprio interior operante de uma camera lucida que a si expõe questionando as próprias condições de feitura da imagem e da nossa identidade perceptiva, ao mesmo tempo que desmonta para logo depois recompôr o real filmado. Daí que essa imagem possa até espelhar-se em testemunho de auto-biografia criativa.

Mafalda Serrano

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