Poesia

ONCE UPON A DREAM I

Era uma vez um lindo sonho:

Apagar o sol com um assobio
Fazer chover camoca
E cuspir na nuvem da fome

Mas hoje
0 sonho lindo derreteu-se num pesadelo sísmico
Ostentando um equinócio perfumado
Na orgia do mandarim

MITO-VIII-86

HORIZONTE INCLINADO

Uma história para Rafael

A pequena figura não passava de distante ponto perdido na extensão da planície.

A pequena figura mais não fazia do que deixar-se estar imóvel, perfeitamente seduzida pela linha ausente que se destacava à sua frente.

0 silêncio parecia bastar-lhe. 0 brilho despido da areia parecia enchê-la.

E tudo mais que viria a acontecer não estava nos seus planos.

...

- Tu aí, que fazes?

- ... ... Apetece-me abraçar o mar... ...

- Mas que história é essa? 0 único a abraçar o mar sou eu!

NOTA SOBRE AS COISAS DA SALA

0 jarro chinês. A antíquissima dinastia tang. Nunca entendi bem esta tua atracção tão particular pela China. Aguela China muito tua, imperial, lendária, que teria até inventado a pólvora. E não a outra, a real, de camponêses pobres a lida nos arrozais e de comités, onde se debate o controle de natalidade. Sabes, os chineses e os coelhos sao concorrentes na grande arte da reprodução. A sério...

FOTO J. NELSON (SEM NOME)

Um dia serei ardente e exacto.
Então terei sentidos inumeráveis
e na minha boca haverá
a ordenação e a intensidade da colmeia.

OSVALDO ALCÂNTARA. 0 poema que me falta escrever.

ACTA FINAL

Apenas uma tónica!

- Púdica, sou a única abstémica.

Agarrada ao espelho,
conto estrelas vermelhas
e argolas de vento,
no vazio sem eco da ilha,
e espreito pálidos sinais
da interminável sorte.
A norte, dizem as gestas,
erguem-se pedestais inertes,
cedidos aos sortilégios dos naturais,
para perdurar a graça e a arte,
mote antiga dos samurais,
esses escultores da morte.

RELÂMPAGOS EM TERRA

1. COITADA DA NOSSA ETERNIDADE

Coitada da nossa Eternidade
É tão vaidosa
Não se senta connosco à porta.

21. RELÂMPAGO EM TERRA

A Verdade quando nos bate à porta
Pensamos sempre que é uma
Impressão nossa, e não nos levantamos.

2. EM ACTO O ÔNTICO

As minhas mãos, estas, querem tocar os horizontes
Não para que saibam que há horizontes,
Mas para que saibam que são minhas.

VALDEMAR VELHINHO RODRIGUES

VERSOS SÓMENTE

7.
Deixou de haver mar, deixou de haver mar.
O azul sobrevive, timidamente, sobre as areias.

9.
Com muita majestade correm as nuvens
Quando nos ares se detém um pássaro.

56.
Debaixo da cama as ratazanas
Roem os sonhos da gente.

61.
Se ao menos fossemos animais somente.
O pior é que somos animais abandonados.

64.
As nuvens há quem as chame de pássaros
Num lugar qualquer. E porque não Momentos?

VALDEMAR VELHINHO RODRIGUES

MENÇÃO TRAGIGO - HERÓICA

Quem não viu
Aquele soldado
Espetando uma baioneta
Ao coração
Jorrando
Lacre e não sangue

Quem viu e ouviu
Um ecologista
A ser devorado
Por uma planta carnívora
Ao tentar beijar uma borboleta

Quem não viu já ouviu falar
Do sucessor de Camões
Que naufragou
N'areia movediça
Na tentativa
De salvar um poema

MITO - I - 86

HERA

Uma desconhecida
deitou-se na minha cama
invisível ser
invadindo o meu corpo

Chamava-se ninguém
era apenas o tempo presente
na dor de um sono
a sensação de um amor puro
na casa da fidelidade

Que importa o meu nome
se tenho na boca
um beijo de cristal
e sou a transparência de um raio solar

Entre todas as dimensões temporais
repetido feito tornou-se real
um sonho imortal
no templo do amor

EURICO BARROS

AURELIUS

O calor que dizia
subir-lhe à face

sempre que
-longínquo próximo
clarividente humilde-
se punha a dissecar dogmas.

Aquele gargalhar
-amistoso ingénuo-
de quem mal acabara
de deglutínar uma guloseima.

Ser o chão a gente e o mar
das suas ilhas e do mundo...

Não!
Ele não está lá.
Não vou convosco à campa de Aurelius.

OLIVEIRA BARROS

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