Foi, de facto, inventada pelo Mito, ele próprio o autor de grande parte das contribuições, uma forma de antologiar poesia, desenhos e outras formas de expressão artística e, a 15 anos de distância será bom lembrá-lo, introduzido no meio literário de Cabo Verde o cartoon como vertente de enunciação estética.

Se o projecto da Sopinha de Alfabeto foi de molde a suscitar entusiasmos e mudar paradigmas, ele também provocou reacções menos benevolentes por parte de quem se sentia no dever de velar pela manutenção de algum rumo pretensamente sério da criação artística, porque relacionado, por definição, com um discurso oficial institucionalmente progressista. Assim, a Sopinha foi caracterizada como “sinal de decadência infantil”, não tendo a revista “importância nenhuma” (Manuel Delgado in: Michel Laban, Cabo Verde - Encontro com Escritores, tomo II, Porto 1992, p. 758 e 762, respectivamente).

No entanto, a Sopinha teve mesmo importância, pelas inovações que operou, pelas reacções que provocou, pelo valor artístico em si que criou. Um pequeno reparo seja-me aqui permitido, já que conheci a revista pouco depois de sair o 2º número, quando estava em Cabo Verde empenhado numa investigação sobre a criação literária recente. Ao ler a Sopinha, tive largos momentos de um riso saudável, provocados ora pelos desenhos do Mito, ora pelos escritos do Filinto Elísio e de outros. Digo isto quando nos meandros da critíca literária nos meios lusófonos se tornou quase um lugar-comum referenciar o Germano Almeida como o escritor que, nos anos 90, introduziu o humor na literatura cabo-verdiana.

O humor, verdade seja dita, não é, tão pouco, património exclusivo da Sopinha (lembro-me, por exemplo, de O Eleito do Sol, do Arménio, que proporciona imensos metros cúbicos de ar hilarizante para serem consumidas em violentas gargalhadas), ele existe, muitas vezes discretamente, disseminado pelo manancial histórico da literatura cabo-verdiana, mas o Mito faz dele um uso ao mesmo tempo desinibido, certeiro e surpreendente, inserindo-o na sua maneira irreverente de produzir arte, que não se esgotou, nem de longe, nos dois números da Sopinha de Alfabeto ora reeditados, aliás fielmente, com utilização das novas tecnologias.

Estará aqui, talvez, mais uma razão de ser desta iniciativa, para além da importância intrínseca de proporcionar a consulta das páginas da revista, desde longos tempos esgotada como tal, aos interessados, estudiosos e curiosos: a do Mito, seu impulsionador e criador, ter, desde então e até hoje, continuado nessa mesma senda então encetada. Ele tem-se mantido fiel ao projecto da Sopinha no seu trabalho artístico, através da pintura, do desenho, da poesia pintada ou outra coisa que se lhe queira chamar. Bem haja e VIVA A SOPINHA!

 

 

 

Lonha Heilmair

Lisboa 27.07.2001


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