Markito com K

(Essas coisas são sempre susceptíveis de acontecer, daí que o que vou contar nada tem de inverosímel).

 

Caminhando absorto pela noite adentro... aparece-me de repente um rapaz bem aparentado, com uma magnífica navalha, que me manda - vá depressa! - passar a carteira, olhando-me com uma impaciência agressiva. Isto deve-se talvez ao facto de os criminosos da capital não poderem operar tão tranquilamente, hoje em dia. A cada momento, é um carro de polícia, vindo da bandas da Frigideira, a patrulhar as ruelas da Achada de Santo António. Daí, o nervosismo de que falei acima...

0 meu interlocutor (o eufemismo, caro leitor, é explicável se tiver a paciência de continuar a ler esta crónica), porém é diferente. Assobia baixinho uma morna, enquanto aguarda que eu me recupere do susto e o despache. Apesar do «vá depressa!», parece-me não ter muita pressa e reparo que é melodioso nos acordes. Traz-me, sem que eu queira, uma saudade infinda dos tempos já muito idos. Mariazinha de antigamente!...

- Sabias, por acaso, que esta morna é da minha autoria!?

- A sério? Que estranha coincidência! Não me diga então que o senhor é Mário Lopes, do qual tanto se fala?

- 0 próprio, em carne e osso.

- 0 famoso senhor Lopes? Não acredito!

- Bem, famoso é muita bondade tua, digamos antes conhecido.

0 rapaz sorri maravilhado.

- Adianto-lhe desde já que tem diante de si um grande admirador. A morna «Mariazinha» é deveras uma obra prima.

- Obra prima? Conheces «Dispidida»? Bem, mas esta não é do teu tempo, não.

- Não seja modesto, senhor Lopes, ora! Quem ainda não se privilegiou com essa musiquinha divina?

- E «Madalena», esta conheces concerteza. Agora estão a dar na Rádio musica-sim, musica-não.

- Já é uma obra menor, se me permite. Francamente, a coladeira não faz muito o meu género, sabe? Prefiro o funáná que é mais profunda e envolvente ou então a morna que é elegíaca e melodiosa.

- Olha, rapaz, sinceramente estás a surpreender-me muito. Desculpa-me o atrevimento, mas estudas no liceu?

Ele olha-me com uma cara pesada e triste. Visivelmente nota-se-lhe um sentimento profundo de angústia.

- Fui obrigado a largar os estudos coisa de há pouco tempo. Disseram-me que tinha passado da idade de continuar. Depois, sabe, a família sem recursos, falta de emprego, uma desgraça...

Sinto-me um pouco constrangido também.

- Pois é, uma pequena desgraça. A vida é assim mesmo, infelizmente as tragédias fazem parte dela. Mas Deus sabe o que faz.

- Deus!? Se Ele existisse, senhor Lopes, neste momento enfrentar-me-ia de cara no chão. Acha que não?

- Cara no chão, não digo, mas lá má consciência, seria mais do que evidente.

Soltamos uma gargalhada. Na verdade, não é um ladrão comum. Tem genica o garoto. E ética, acima de tudo, caro leitor. Pois veja...

- Gostaria de lhe pedir uma coisa. Que componha uma morna sobre um drama como o meu. Mereço-a, sei que sim. É claro não a exijo tão linda como «Mariazinha», longe disso. Diga que sou forçado a roubar a sobreviver. Trabalho não tem mais nesta terrinha. Custa demais viver.

E a carteira? Não deixo de pensar na carteira, confesso. Presente de aniversário de casamento oferecido pela Mariazinha. Couro puríssimo, trabalhado com arte, do Senegal. Uma pena perder um objecto de estimação! Mas a carteira é dele. Mais dele do que minha, por sinal. 0 rapaz até que merece muito mais. É claro, uma dorzinha no estômago não consigo evitar na chamada hora H...

Entretanto, ele olha-me com ar de desaprovação.

- Senhor Lopes, o que vem a ser isto?! Guarde a sua carteira, imagine. Roubar um artista, um profeta como o senhor, nunca!

De súbito, põe-se a correr e ganha a escuridão da esquina mais próxima. Grita-me

- Chamo-me Markito, com K. Nao se esqueça do meu nome na morna. Muito agradecido!!!

E desaparece na noite.

No céu, as estrelas brilham fantásticas, tremuluzentes, misteriosas e alheias a tudo. Agora pergunto se tudo o que contei ocorreu realmente. É possível que não. De qualquer forma, o meu próximo trabalho intitular-se-á MARKITO. Com K, naturalmente.

 

FILINTO SILVA

- continua +

 

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