Redescobrir Santa Luzia


Esquecida por nossos músicos e poetas a ilha de Santa Luzia - da qual parece restar uma lenda somente - desponta-se da vastidão do mar como uma pérola, e deixa que os seus montes nos faça lembrar, já à primeira vista, estes versos arrancados à poderosa verve de Jorge Barbosa:

Montes alerta
implorando ao céu.
Montes alerta
nos seus contorcionismos estáticos
de séculos
sorrindo para o céu esgares enigmáticos
como que evocarem um drama milenário.

Dante não terá pisado o chão do paraíso com maior alegria que um cabo-verdiano pisa o chão de Santa Luzia. Invade-nos, sem mais tardar, o seu aroma balsâmico de mulher, e toda a paisagem parece recatar a sua solidão saudável, espantar a um Robinson. Vê-se logo, sobre um outeiro, uma cruz (colocada nos anos sessenta, quando da primeira missa ali celebrada) e a pouco mais de vinte metros um santuário, pequeno e indefectível. E, a explicar a existência dos dois, estão mais atrás as célebres ruínas onde viviam os dois casais que ali pastoreavam, quase isolados do mundo, as suas cabeças de gado vacum e caprino. Preservam, ainda, estas ruínas (que nas nossas ilhas são mais conhecidas do que as romanas), e com uma certa índole, os seus mais variegados vestígios, que veio de mesas enervantes aos bonecos de trapos. À sua retaguarda padece o único poço da ilha, que mais parece uma pocilga de águas, à espera do primeiro suicida. Caminhando-se ao comprido da praia onde se faz o desembarque vai-se ter à uma horta - tão arruinada como o casaredo - onde sobrevivem menos de meia dúzia de árvores - o único intervalo verde da ínsula, em mais parte se encontram árvores -, com tamareiras comicamente dobradas. Ali desaguam saudosa e salutarmente, quando chove, as águas vindas das nascentes. Ali trauteiam as suas mais belas canções os pardais. Tudo isso sob um cenário sublime em que sobressaem grutas de exigente beleza.

Em Santa Luzia práticamente não se pode falar de interior. Está sempre à vista o mar, o que Ihe confere maior insularidade. Os seus montes (há um só monte isolado em toda a ilha, bem no centro - muito parecido aquele altaneiro da região dos Picos) acabam por formar uma serra, onde só falta à Cidade. 0 Noroeste apresenta-se, indiscutivelmente, como o mais sério abrigo habitacional. Já o norte - que é tão difícil de calcorrear - distingue-se pela ausência exclusiva de praias (nem mesmo de um lugar que sugira as recordações destas), com vertentes abruptas e podres - de origem magmática, como as demais rochas da ilha - a se lançarem desesperadamente ao mar e pelos vários destroços de navios deixados, miseravelmente, pelos caminhos, bem como um monturo de tábuas e bóias - estas aos milhares, como uma praga. Os peixes que por ali abundam constituem a sua maior riqueza.

As praias de Santa Luzia são enormes, de areias úmidas e brancas (cintilantes mesmo) e águas límpidas e azuis. Estas cantam de um modo diferente, divinal. E de madrugada temos esta impressão; de que «as sereias vem ter-se, seduzidas, às areias». Uma das praias, a oeste, onde o sol, sem olhar ainda para o infinito, se eterniza logo ao nascer, rodeada por pequenas dunas e arbustos, e de uma inigualável beleza, vista do alto, entre dois montes sobranceiros que se deixaram, sem saber como, prender de puro espanto. Estende-se preguiçosamente, como uma virgem eternal, iluminada por dois ilhéus vizinhos; o Raso a parecer como cobra e o Branco um resplenderoso castelo clássico. Esta praia, e assim despovoada parecer-nos-á sempre mais estupenda, assume-se, a par de por exemplo um Monte Velha do Fogo - como uma das paisagens mais belas da nossa terra.

E quando a gente deixa por fim, para trás, a Luzia depois de passar ali belos dias, não é uma santa que deixa para trás - mas sim uma deusa.

 

GRUPO SALTA PEDRA

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