Horizonte inclinado

Uma história para Rafael

 

A pequena figura não passava de distante ponto perdido na extensão da planície.

A pequena figura mais não fazia do que deixar-se estar imóvel, perfeitamente seduzida pela linha ausente que se destacava à sua frente.

0 silêncio parecia bastar-lhe. 0 brilho despido da areia parecia enchê-la.

E tudo mais que viria a acontecer não estava nos seus planos.

...


- Tu aí, que fazes?

- ... ... Apetece-me abraçar o mar... ...

- Mas que história é essa? 0 único a abraçar o mar sou eu!

- ...Que história é essa pergunto eu. Desde quando os «horizontes» falam com os «vaticantes»?

- Tu não sabes nada, mas é! Certamente nem sabes que o teu coração está grávido e que ainda não deu à luz.

- E tu, como podes saber coisas de mim? Nunca sequer deste pela minha presença...

- E tu, por acaso nao tens estado aí a mirar-me não sei há que tempos? Isso basta para que também te mire. E eu tenho olhos transparentes...

- Mentiroso! Desde quando é isso possível?

- Desde quando as borboletas viam e as árvores são verdes que tudo é possível. Desde quando aqui estou que tudo é possível agora.

- Agora?! Porque agora?

- Porque só agora te meteste comigo...

- Eu?! Tu é que falaste primeiro comigo!

- E quem desejou primeiro falar? Eu de certeza é que não. Desejar nao é comigo. Eu realizo.

- Eu só queria abraçar o mar, já te disse!

- Só isso? Tenta ver se és capaz. Olha que eu duvido.

- Mas... sabes, ainda ontem passei pela porta da tua janela, e nada havia que não me deixasse ir ter com o mar. Até as cortinas estavam pintadas de azul!

- Realmente não tens culpa que tenha esquecido do vermelho.

- Ah, eu não gosto de vermelho!

- Mas devias gostar. Porque vermelhas são papoilas, e vermelhas as minhas emoções em dias do sol solvente.

- Sabes, as minhas emoções são côr-de-laranja...

- Côr-de-laranja...

- Sim, côr-de-laranja, como o sol em dias de sol solvente... 0 que é que pensas? Que só os horizontes têm cores? Eu tenho uma árvore no meu quintal que quando quer fica azul, sabias?

- E eu quando quero fico de todas as cores... Nunca viste por aí montanhas de arco-íris embrulhando o entardecer?

- Sabes o que mais? És muito vaidoso para o meu gosto. Tás p'raí a elogiares-te e daqui a pouco ainda te esqueces de te preparar para receber o sol que se aproxima.

- E tu és muito atrevido! Que tens a ver com as minhas relações com o sol?

- Oh, não te chateies, por favor. Eu só quero é ter-te como amigo. 0 meu tio Bom-Senso disse-me que não há nada como a sinceridade para se fazer amigos. Por isso é que estou a falar com toda a sinceridade.

- Então não te admires que eu faça o mesmo, não é verdade?

- E, tens razão. Queres conhecer o meu tio? Ele diz montes de coisas certas, se sabe muitas coisas, como tu. Só que acho que ele não conhece as cores. Ele anda sempre de castanho. Até a gravata é castanha, imagina!

- Ih, pá! Tens a certeza que ele não conhece côr nenhuma?

- É! Parece que a casa dele não tem portas nem janelas. E daí ele não conhecer o céu e as nuvens. Acho que ele nunca ouviu falar de ti.

- Que disparate! Quem é que nunca ouviu falar de mim?

- Eu, por exempio, nunca ouvi falar de horizontes falantes...


- Ah, isso és tu que és um ignorante! Porque tu nem imaginas as habilidades que sou capaz de fazer!

- Tu, a fazer habilidades? Ai, que vou rir. Nunca te vi mais gordo ou mais curvo ou mais oblíquo! Sempre te vi assim que nem um tubo mecânico que nunca desempena!

- Que descarado! Mas ouve cá, nunca ouviste dizer que toda a gente tem os seus segredos, tem os seus truques bem escondidos?

- Truques? Que truques podes ter tu?

- Queres ver?... Mas promete que não dizes nada a ninguém, esta bem?

- ... ... ...


Até hoje ninguém sabe como foi que a figura, a pequena figura ganhou boleia até o sol, para se dissolver no seu côr-de-laranja.

Por aí porém se diz que o horizonte tem efectivamente os seus truques. Para os amigos onde se inclina, lança línguas em espuma luzidia que envolve cada corpo e os transporta para o sol em dias de sol solvente.

 

PAULA VIRGÍNIA

- continua +


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