Nota sobre as coisas da sala

0 jarro chinês. A antíquissima dinastia tang. Nunca entendi bem esta tua atracção tão particular pela China. Aguela China muito tua, imperial, lendária, que teria até inventado a pólvora. E não a outra, a real, de camponêses pobres a lida nos arrozais e de comités, onde se debate o controle de natalidade. Sabes, os chineses e os coelhos sao concorrentes na grande arte da reprodução. A sério...

º

0 vaso de flores. Não tanto pelo vaso, mas pelas flores - orquídeas! - mandadas vir de Lisboa, expressamente para o casamento da Nélida. De há dois dias para cá, elas começaram a mostrar sinais de murchêz. Andará também em putrefacção o recente casamento da Nélida? Cá estou eu novamente a querer fazer analogias de doido, como dizes. Todavia, tu foste testemunha, a Nélida, falando ao telefone com a Lichinha, garantiu-lhe que só a vida de solteira era a verdadeira vida. As flores teriam escutado a conversa? Quem sabe...

º

0 retrato do avô. Lá vens tu outra vez com histórias de que o avô era um republicano fervoroso. Quero lá saber das convicções políticas do avô! Quem teria feito ao avô esta fotografia? 0 nome está escrito no papel amarelecido, mas é imperceptível à leitura. A esponja do tempo deforma e apaga todas as marcas. Como seria o homem que fotografou o avô? Voltando as convicções políticas do avô, ainda te lembras das discussões que costumávamos ter com ele? Estávamos (estávamos?) mais avançados do que ele tinhamos a razão. Porém, muito mais tarde, pude compreender que apenas tinhamos a nossa razão e que em política, isso não era assim tão relevante. Quero lá saber das convicções políticas do avô! 0 avô era o avô e acabou-se...

º

A música de Vivaldi. AS QUATRO ESTAÇÕES. Sempre tive este profundo desejo de ser maestro ou bailarino. Nao concordo que os maestros sejam autoritários e os bailarinos efeminados. Nao me digas que andas a sorver as enormidades do Manel! 0 Manel, para os que não sabem, é um machista do tipo «porco chauvinista» com sérios problemas de ejaculação precoce. Violento que se farta. Etel, a doce da esposa, vem refugiar-se, de quando em vez, cá em casa. Mas não me vou servir da música de Vivaldi para abordar o meu idílio amoroso com a Etel, não é? Só digo que fazemos um lindo «pas de deux...»

º

0 relógio de cucos. Toda a vida me encantou este lindo relógio. 0 meu bater de horas é sempre em linguagem de cucos. Carrego isto comigo desde que me lembro por gente. Talvez seja esta recordação mais consequente da minha primeira infância. Quando o gajo da PIDE esteve a farejar cá em casa, o relógio misteriosamente parou. Tretas, disse o tio Eugénio que sempre foi de um cepticismo religioso. Mas como todo e qualquer lar tem a sua lenda íntima, oficializamos esta. Há dias, o relógio tornou a parar. Ficamos todos desconfiados do novo amigo que o Albertino arranjou. Paranóias, tornou a dizer o tio Eugénio. 0 desconhecido andou a estudar num País não muito católico e entrou-nos casa adentro com estranhas conversas sobre política. 0 pai retorcia e emudecia o seu cantar de cucos. Se o avô estivesse vivo! A lenda do relógio de cucos continua...

º

A cadeira de baloiço. Os últimos dias da vovó Alzira foram vagarosamente penosos. 0 cancro a consumia com vigor de uma tortura e nós - foi tão triste! - Assistíamos impotentes a tudo. A morte, ao mesmo tempo que nos mostrava a sua face horrível, era uma sedutora intraduzível. Esta cadeira de baloiço tudo tem a ver com a morte. Perdoa-me estar a trazer-te momentos tão amargos. Eu sei o quanto estimavas a vovó Alzira, tão frágil, tão cotovia, tão flor exilada. Sabes, a Sucas é que adora baloiçar nesta cadeira. Pelo balanço apenas, pela dolência apenas de quem está apaixonada. Se lhe conto história da cadeira, fica amedrontada e diz que não gosta dos meus filmes de terror. Achas paradoxal o meu amor pela Sucas? Eu também acho. Mas o que se pode fazer?!...

 

FILINTO ELÍSIO



- continua +

 

Home Pintura Fotografia E-art Video E-card Sopinha de alfabeto ultimatum Biografia Indice Email Mito