Mindelo esta a arder?
A bica do café Rêgo, homenagem de um desertor,
atingido fatalmente por uma indigestao fraccionista.
Um sol em miniatura crava-nos o peito numa tarde de Mindelo. 0 ar condicionado das minhas narinas, insubmisso e cosmopolita, invade de repente o pequeno universo da minha estúpida saudade. Vejo-a ali, estampada no vidro sujo do armário contendo bolinhas de arroz, garrafas de orange squash e chocolates americanos. Enquanto medito no destino submarino de meus ossos malditos e enfadados e uma ventoínha traiçoeira e antiquadíssima queima o oxigénio que ainda nos resta para digerir a caldeirada mágica e serena, pisco o olho a uma jovem imaginária, acastanhada, pernas e coxas de maizena, as bochechas brilhantes, estupendamente bem nutridas. Ela responde-me com um gesto semelhante ao meu, sorri com os lábios grossos, e diz-me, aparentemente indiferente ao silêncio quente da rua lisboa:
- Olha, meu caro, que queres tu que eu te diga? Amo-te com amor de baleia prostituída! Adoro o verão de teus cabelos açucarados! Depois, ri. Como se fosse sábado em noite púdica de ofélia. No mesmo tom de chacota, continua:
- Mas, ouve lá, meu valentão, meu semáforo provinciano, queres ou não embelezar a pele, tragando um copo bem cheio de minha angústia electrónica?
- Sim, minha bela estátua de mel, costumo encontrar na sede do amarante, todos os dias à tarde, fontes limpas jorrando bocados rebustos de melodia espumante, como se, por acaso, os coqueiros da minha tristeza pudessem curvar-se, românticos e mexeriqueiros, sobre o mar amarelado de nossas vidas desamparadas. Mete-me dó ver ali especado, cabisbaixo, disfarçado de polícia à paisana, um jovem amante de montras prenhas de artigos de natal e fanático adepto da morna embriagada.
0 Porto Grande parece estar de traje domingueiro. Encostado a uma cadeira de lona, sonha com o tempo em que poderá brincar com guindastes anfíbios ou engolir, gulosamente, pedaços frescos de carne de vaca. Sua cara, normalmente sorridente, azul justifica a imagem de uma montanha atravessando diametralmente a cintura da ilha. Um inquérito, recentemente feito, por respeitadas senhoras da Sociedade dos Bichos Não-Alinhados, ao patrão incontestado do burgo mindelense (continuamos a falar do Porto Grande, tá bem?) fora declarado nulo e de nenhum efeito. Em cerimónia marcada pela compustura e pelo desencanto, desabafava uma dessas conhecidas damas da cidade:
- Imaginem só, queridos sócios, o atrevimento sem par e a irreverência desse romântico incurável! Sabem o que respondeu à nossa pergunta, «concorda com a jovem portaria sobre a limitação à importação de sorrisos multicores»? Abrem bem os ouvidos.
- Pobre senhora. Nunca teria reparado na minha inocente extravagância? Digo-lhe, no entanto, que me senti obrigado a comprar e a ler o livro «beijar sem mestre».
Encolheu os ombros, fez um horrível trejeito com as sobrancelhas (criminoso impune), voltou-me as costas e desatou às gargalhadas. Proponho aqui, de forma solene e responsável, que, por aclamação, seja aprovada a alteração do nome dele para «LARGO DOS MÁRTIRES DA RECONSTRUÇÃO».
A proposta recebeu, prontamente, os aplausos prolongados de todos.
Dias depois, uma placa nova e atraente era colocada, com o aparato que tão importante acto exigia, na avenida marginal. Muito povo, muito entusiasmo, muita militância, a rádio, compre na casa confiança, um discurso magistral, as máquinas que as donas de casa preferem, viva o chalana. Tubarões enfeitados, em bicha, acenando, como sinal inequívoca solidariedade, bandeirinhas de cetim. Sem dúvida, castigo exemplar para tamanho falta de consideração para com os MFNT (sigia que, ainda hoje, constituí indecifrável mistério).
No alto de S. Nicolau, porém, a noite, uma noite de poeira e de lua trocista, um jovem delinquente, bêbado incorrigível, protestava, solitário, em voz alta, contra o que considerava, certamente por despeito e irresponsabilidade, abuso de autoridade.
Naturalmente, fora preso umas horas depois. Mas, numa madrugada adúltera, a maré revolta, numa demonstração estranha de desconfiança e de rebeldia inaceitáveis, transeuntes anónimos, talvez estrangeiros desembarcados clandestinamente, mudos, desinibidos, autênticos fantasmas indesejáveis, ruminavam gestos de desaprovação e de astuta aversão a historiazinhas de embalar para meninos disformes, a mente carcomida por monstros adestrados, asmáticos, destinados a um asilo psiquiátrico.
Na véspera da despedida para a morte permanente, o Porto Grande, senhor de sua dor gigantesca e alaranjada, abraçava, benevolente e comovido, corações atingidos pela desgraça, casmurramente incompreendida por vespas e serpentes bem embaladas e expedidas como mala postal.
Mindelo, Maio de 1979
JORGE CARLOS FONSECA
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