A secretária sonega o pouco carinho do burocrata. O palhaço
suicida-se sob o autocarro vermelho. Duas crianças disputam
os despojos do lixo.O velho anima-se no seu último momento.
Algumas estrelas polvilhai? os olhares.A Igreja Matriz
deposita os fiéis na rua.Mi l e tantos convictos em Congresso.
Um comunicado e um panfleto.Perdoem-me se o poema é apenas
um corte na carne dorida da cidade...
Onde fui arranjar esta angustia de ser sózinho?0 que me leva
a rodar tabernas nocturnas,tragando os terríveis dramas
de cada um? Por que versejo extrapolações,coisas como ilusões,
tragédias surdas? E o que é deste querer que amanheça amanhã
o travo amargo de uma claridade?
Seja,a cidade é uma realidade sui generís. Ruas de um só
sentido.Becos sem saída. Áreas restritas. Excessos de violeta.
Mercados negros. Ladrões de casaca.Homens de escuta altamente
qualificados.Prostitutas vamps. Ditadores vips. Divagações de gestos de desfeitas intenções.Afluentes da Rua do Corvo eternas
a desaguar na Praça. E não apenas e tão só a transparência
erótica das coxas. A coagulação vermelha das rosas. A doce
tropicalização dos desejos na Quebra Canela deserta. Ou mesmo
o marítimo abraço de uma sereia.Tão singular quanto exótico...
Por isso,
com todos os possíveis riscos te desejo muito. Uma alma oferece
o seu sublime voo a um corpo fantástico,de pedra talvez.
Tal qual,da sua profunda utopia,o poeta oferece a sua metáfora
à cidade. Ou à esplêndida esfericidade da lua. Da sua realidade
inteira e redonda. Como a totalidade e o absoluto
de qualquer coisa falsa ...

 

FILINTO ELÍSIO

- continua +


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