Sopinha Edição N° 2

Os modelos que proponho não são mais do que pontos de partida para a reflexão. Nunca pontos de chegada. Estes modelos devem ser confrontados com a realidade e, sobretudo, com o aleatório. Devem ser contestados destruídos, pois só podem evoluir na confrontação e na descontinuidade, ou seja, na acção. É através de uma incessante alternância, entre representação e acção que um modelo conceputal pode evoluir.

JOËL DE ROSNAY. O Macroscópio. Para uma visão global

A publicação do 1.° número do projecto experimental Folha Cultural SOPINHA DE ALFABETO foi para uns uma pedrada no charco e para outros o retomar de uma série reflexão sobre alguns aspectos da cultura caboverdiana.

Ainda há bem pouco tempo, alguns «experts» da realidade sócio-cultural do País proclamavam de ilusório e utópico o projecto de uma folha cultural independente e desvinculada de quaisquer compromissos exógenos.

Alonso Quijano de Triste Figura!
Que vento era esse que te cuspia areia
no cérebro e fazia rodar os teus moinhos?

E tu a berrar, e tu a jurar
que eram gigantes as velas que vias.

Cá entre nós, baixinho, para que o abade
não oiça, posso dizer-te o nome do autor
dos livros que lias. Queres saber?
Pois bem, é o anjo caído. Satã,
a serpente enroscada na árvore da Ciência
do Bem e do Mal.

Teus dedos são para mim
a areia fina
que penetra de leve o oceano.

As folhas já caídas formam leito
pr'aqueles que se amam num momento.

E a lua não tem luz suficiente
pr'aquele amor
tão sôfrego e brilhante!

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Quando as arvores, um dia se vergarem
e, de braço abertos para o chão, o céu
chorarem, deixem florir os risos daqueles
que, inertes, permanecem num mar sem norte

MARGARIDA MENDOÇA (21/2/84)

.....e no meio de uma selvática correria
para a carne, para a morte e, paradoxalmente,

para a cruz, trôpego entre grilos esfaimados,
Dulce parecia a salvação...
(de um romance que jamais será publicado)

             A uma comissão de fim de ano
             merecedora de epitáfio onde irão mijar
             seis (seis) santolas cabeçudas

O silêncio
desflorou-nos
Irremediavelmente

em águas derretidas
em amarelos crisântemos
e vermelhos de papoilas abertas a campos esquecidos.

E que te contar mais?

Que a lua voou
e que a flor murchou?

Que o meu sonho
tropeçou na noite
e que as lanternas se apagaram?

Que o barco
se perdeu na margem da partida
e de chegada para o outro lado?

E que não existo
aquando das madrugadas nuas?

E que nasci das conchas do fundo do mar?

Conta-me antes tu
da gaivota que voa
e da flor que floriu...

PAULA VIRGÍNIA

Só na estrada
odisseia
viajar no tempo
sonho inocente
de um quadro de infância.

Promessas de vida e mortes
destino feito de risos e lágrimas.

Narciso
um desejo político
diamantino ego
templos e palácios de espelho
uma taça de cicuta
décor de Atenas.

Vidas sobre vidros e pedras
a pureza de um pavão sem penas
traduzindo a cor dos outros
nas ruas psicadélicas boítes camas
billie's blues soul classic rock n'roll
no veludo sedoso da tradição.

O calor que dizia
subir-lhe à face

sempre que
-longínquo próximo
clarividente humilde-
se punha a dissecar dogmas.

Aquele gargalhar
-amistoso ingénuo-
de quem mal acabara
de deglutínar uma guloseima.

Ser o chão a gente e o mar
das suas ilhas e do mundo...

Não!
Ele não está lá.
Não vou convosco à campa de Aurelius.

OLIVEIRA BARROS