Sopinha Edição N° 1

É ENGRAÇADO A FORÇA QUE AS COISAS PARECEM TER, QUANDO ELAS PRECISAM ACONTECER!
CAETANO VELOSO

SOPINHA DE ALFABETO N° 1 - Como forma de aguçar o espírito do riso e activar o ambiente passivo na boca do lixo, nasceu sigilosamente na Praia nos finais de 1985. Mas só foi lançada oficialmente, no Mindelo em S.Vicente, em Novembro de 1986, por ocasião do 50° aniversário da revista Claridade, após ter resgatado um certo rugido.

No momento em que se comemora o 50.° Aniversário do Grande Movimento Claridade, cujo impacto nas letras e mentalidade cabo-verdianas se revestiu, na época, de uma natureza verdadeiramente revolucionária para a Cultura do País, damos aos escaparates das nossas urbes o n.° 1 do projecto experimental «Sopinha de Alfabeto», contribuindo assim para o combate à quase letargia cultural em que nos mergulhamos.

aquela do coveiro boa gente que a Deus pede mais morte
e o recurso de mais pão
aquela do artista travestido de absurdo
e subversivo mefisto das horas substantivas
aquela da mulher náufraga e sem rumo
que como as ondas do mar vem dar às nossas praias íntimas
aquela que nos abre a flor e nos fecunda a alma
aquela do cão vadio que ninguém dá a mínima
mas que o menino triste acompanha e quer adoptar
aquela da estrela cadente na qual "o da passiva"
viaja na ponta do charro
aquela da "luamito" da metalinguagem futurista

Aqueles que em potência têm mais capacidades que as
que são capazes de exercer, de objectivar, de realizar,não se
devem preocupar, porque as suas potências não são inúteis;pois
as energias desse absoluto,sem o saberem,são utilizadas pelos
deuses na criação dos seus reinos,nos mais belos e desejados
sonhos que têm.

do estar

A música predominava
Um ambiente vácuo
Diluindo-se na inibição em suma
Do querer mais.

Olhares penetrantes
Do fascínio sigiloso
Do silêncio...

Embriaguez de paixão!

Delírio
Em flagrante delito
Da clave de sol,
Aprisionando
O gargalo da noite.

MITO - III - 86

Em certos momentos ganhar forças
é igual ao caminhar solto para o cadafalso
como esmagar a própria cabeça na parede
ou uma dor piri-piri na toráxica que faz rir

Para o grupo folclórico & recreativo
RAÍZES,em nome da Arte Caboverdiana.

CONFLITO ENRAÍZADO

E daí a evolução trouxe aquela árvore!

-Mas qual árvore?

Aquela que tem o tronco de borracha,
Copa de nylon e raízes de plástico.

Foi por isso que o conflito enraizado
Gerou muitas flores e frutos!

-Mas quantas flores e frutos?

Tantas quantas, foram sucumbidas
e vitimadas pela evolução.

MITO - IX - 85

A secretária sonega o pouco carinho do burocrata. O palhaço
suicida-se sob o autocarro vermelho. Duas crianças disputam
os despojos do lixo.O velho anima-se no seu último momento.
Algumas estrelas polvilhai? os olhares.A Igreja Matriz
deposita os fiéis na rua.Mi l e tantos convictos em Congresso.
Um comunicado e um panfleto.Perdoem-me se o poema é apenas
um corte na carne dorida da cidade...
Onde fui arranjar esta angustia de ser sózinho?0 que me leva
a rodar tabernas nocturnas,tragando os terríveis dramas