O artista plástico Mito está de volta à sua cidade natal, Praia, com mais uma amostra de pinturas. "Kurasson di Sibitchi" é o nome desta nova aventura, feita de muitas andanças, cujo resultado são duas dezenas de quadros que poderão ser vistos, até o dia 31, no Palácio da Cultura, seguindo depois para S. Vicente, no Centro Cultural do Mindelo.

Com uma carreira iniciada em 1983, na Praia, o irrequieto e inquietante Mito é já um nome considerado e apreciado da arte plástica cabo-verdiana. Pintor, fotógrafo, caricaturista e homem de B.D. (banda desenhada), além de poeta, Mito conside-ra-se a si próprio como um "poeta das imagens". Num percurso com mais de 10 anos, altura aliás em que se mudou para Portugal, onde frequentou vários cursos, Mito expôs já em várias cidades portuguesas, além de Luanda, Boston e Brescia.

"Kurasson di Sibitchi" é, segundo o próprio pintor, o continuar de uma experiência gráfica e técnica que vem perseguindo há muito, em especial desde a sua anterior exposição, "Lágrimas de indigo". "A partir daí tracei o meu caminho e ainda estou na torrente das minhas lágrimas", confessa irónico.

Influenciado pela tradição oral do seu país, mais especificamente de Santiago, Mito busca uma pintura que é ao mesmo tempo uma forma de "poesia em movimento". Isto é, nela a poesia escrita e a pintura se manifestam através de um diálogo constante, nomeadamente através de símbolos e expressões recolhidos da oralidade crioula. "Tenho procurado recuperar a tradição oral e tentado encaixá-la no meu trabalho", confessa de novo.

Esta é, segundo Mito, uma forma muito sua de imortalizar "as nossas coisas", "Sibitchi e lantuna são dois exemplos disso", acrescenta. "Há, ao mesmo tempo, um lado pedagógico. Muitos cabo-verdianos hoje já não sabem o que é sibitchi ou lantuna. Por assim dizer, somos ingratos com as nossas coisas".

Para além dos quadros propriamente ditos, quem esteve na abertura da exposição pôde assistir a uma "comunicação multimédia" de Mito, na qual mostra, através do vídeo, o seu processo criativo e a busca, ao fim e ao cabo, de outras formas de expressão que nos remetem a uma arte psicadélica, onde são visíveis alguns sinais dos filmes de James Bond ou "Submarino amarelo" dos Beatles. "Através destes meios tento inserir o nosso espaço cultural num novo contexto, retirando a nossa cultura do guetto em que.se encontra e inseri-la num contexto global, conclui.

São, pois, estes os caminhos de Mito. Segundo o historiador António Correia e Silva, que assina o lindo catálogo desta no-va amostra de Mito, este é um "esgravatador de cova de kutumbembem", que ousa "também alcançar o coração de azeviche". E esclarece: "O coração de azeviche é pois a mãe de todas as sedes e procuras, por isso razão de toda a arte. Deste modo nossa guarda contra o mau olhado do destino vário e inglório de todos os dias".

Esta exposição é organizada pela Associação Zé Moniz e conta com apoios do Ministério da Cultura, Câmara Municipal da Praia, da TACV e da Cooperação Austríaca.

JVL - A SEMANA Nº424, Sexta Feira, 22 de Outubro de 1999. Página 19.

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