ESTE ÚLTIMO trimestre do ano deu aos mindelenses a oportunidade de ver três exposições sucessivas de pintura no Cen-tro Cultural da sua cidade. Vou-me ocupar rapidamente aqui de duas delas, deixando, para um próximo artigo, as reflexões que a terceira, ainda em curso, neste mês de Dezembro, me sugere.

Esses, a que me vou referir, são dois pintores com poucos anos de diferença de idade:Mito, nascido em Santiago, e Alexandre Silva, nascido, de pais cabo-verdianos, em Angola. Este último, o mais novo, tem grande estima pelo primeiro. Reúno-os porque se nota uma similitude de forma e de propósitos nos seus trabalhos, indo até à inclusão, nas telas, de textos, como componente da mensagem pictórica(1). A primeira impressão que colho ao olhar para as obras é a de que seus autores frequentaram directa ou indirectamente o Movimento COBRA (recorda-se que esta sigla COBRA, feita de iniciais de três cidades da Europa - CO-penhague; BRuxelas; Amsterdão-abrange pintores, que, nos anos 50, se unem numa pesquisa es-tética mais ou menos similares), já que nelas estão presentes alguns ingredientes essenciais do movimento, tais como foram revelados, especialmente por Karel Appel, Lucebert, Constant, Corneille: a figuração, algo monstruosa, ou deformante, um tanto faceciosa ou agressiva, o culto da cor viva, mas de maneira claramente diferente da dos fauvistas, porque múltipla e "'encenada", por assim dizer, em intercâmbios e equilíbrios inesperados.

Quem não evocará Lucebert ou Anton Rooskens, por exemplo, em face de certos quadros de Silva? Quem não admitirá que Mito passou algum tempo a ver obras Appel, de Corneille, ou mesmo de Pierre Caillie, ou dos seus epígonos? Observem-se, por exemplo, as obras importantes, que são, neste particular, Sôba di cutelinho) técnica mista s/tela, 70x100), Hóspede do profeta sem morada (técnica mista s/tela, 70x100 cm), Pantador di fiticêra (técnica mista s/tela, 100 x70-cm), Dia santo na lém di mulato (técnica mista s/papel texturado). Quer Mito quer Silva não admitem terem estudado propriamente estes pintores, embora tenham sido treinados em escolas europeias, Mito em Lisboa e Alexandre em Roter-dão, continuan-do, de resto, a viver nessas cidades, onde se formaram. Tudo o que este último, que segue uma formação académica numa Escola de Belas Artes em Roterdão, confessa é uma forte admiração pelo mestre holandês De Kooning (pintor abstracto, depois de ter sido neo-expressionista), que viveu durante muito tempo nos Estados Unidos da América, onde faleceu há al-guns anos. A confidência é útil para o estudioso que estará, assim, preparado para compreender a origem de certas incursões do cabo-verdiano por um mundo entre figurativo e o abstracto, quiçá, do seu gosto do traço um pouco alucinado, aleatório, mas um tanto ou quanto generativo de estruturas pacientemente líricas, numa mistura de rigor e de indeterminação ou flou quase fotográfico.

Mito já está decerto a instalar num estilo mais ou menos próprio, atulhando as citadas presenças (consciente ou inconscien-temente consentidas) de outros criadores (um europeu, sobretudo um belga ou holandês, perventura considerará Mito mais da sua cultura do que da nossa) com palavras (cf. as três primeiras obras citadas acima) e referências - e.g,, à tradição oral, ao imaginário colectivo popular - crioulas. Assim, a propósito do título da exposição, Kurasson di Subitchi, diz Mito que "é uma forma de homenagear as nossas coisas e, por outro, sibitchi é um objecto que, pelo que tenho constatado, está na moda. Tenho visto muita gente, sobretudo mulheres, com sibitchi pendurado ao pescoço" . E acrescenta que é, também, de certa forma, uma homenagem "à mulher cabo-verdiana, ao amor cabo-verdiano" . Esse estilo é, curiosamente, mais aparente, a meu ver, num vídeo de que fez acompanhar a exposição - e pode-se prever que venha a ocupar um espaço peculiar, mesmo brilhantemente original, no panorama da pintura, cabo-verdiana, de preocupações outras que estritamente locais. (Talvez quando o encontro entre o património lido ou recebido das ilhas e o adoptado ou recolhido da pintura se estabilizar de forma flagrantemente, '"constantemente" pessoal, como é o caso, designadamente, dos irmãos Figueira, especialmente de Manuel/o caso mais original, creio, da nossa pintura actual, a pedir estudo cuidado). Atente-se, por exemplo, nessa grande obra, que dá justamente o nome a esta exposição de 22 títulos, Kurasson de Subitchi (técnica mista s/papel texturado, 70x100 cm), reproduzida a cores mais vivas, surpreendentemente, mais expressivas no desdobrável, que acompanha a mostra, e no cartaz publicitário, de forma que se chega a perguntar por que não utilizou tais cores para a tela exposta. Ele deu-me uma explicação técnica, que, infelizmente, não retive. O que aqui afirmo sobre o lugar de Mito, de seu nome próprio Fernando Hamilton Barbosa Elias, era talvez mais aparente na exposição, denominada Lágrimas de indigo, realizada em Junho/ Julho de 97 na Praia e no mindelo, a julgar pelo catálogo, já que não a vi.

Ambos os pintores parecem hesitar entre figurativo e o não figurativo. E digo hesitar, porque se intui que a associação das duas expressões, pela sua própria natureza, que não é sistematizada, nem estrutural, não resulta duma opção indiscutível, quer dizer que uma escolha definitiva não foi ainda decidida, o que, em conversa, é confirmado pelos interessados. (Silva, falaria, mais tarde, em entrevista à A Semana(2), de conflito "que realça um debate intelectual"). E tal decisão está ainda mais longe de o ser, creio, no caso de Alexandre, de que alguns dos 23 quadros expostos são manifestamente fracos (e.g., Fugitivo, Vítima da miséria), indicam pressa e pouco cuidado na elaboração ou acabamento (e.g. 200 Dias, Gostaria de poder voltar, Tu me tens, Indiferença, Sem título La islandesa). Mas uma coisa julgo puder afirmar com alguma segurança: trata-se dum jovem pintor que já demonstra um notável domínio da cor.

Tendo acompanhado Alexandre Silva à casa da mãe, no Mindelo, onde dispõe dum local para trabalhar, quando de passa-gem pelo arquipélago, deparei com quadros de grande formato, que diz ter apresentado em exposições anteriores, quadros duma qualidade que obra alguma da presente mostra realmente atinge. Quadros que me levam a pensar que este artista revela uma força inigualada até então por nenhum dos poucos mais de meia dúzia de pintores cabo-verdianos de envergadura internacional, a que me referi algures e aos quais tenciono consagrar curtos estudos como esse, em que comentarei a obra de Tchalé Figueira(3). Esperemos alguns anos para ver se esta impressão se confirma.

Não sei, não percebo por que Silva se diz pintor da condição humana, mas o que suponho ter entendido é que essa descon-certante força, a que aludi, que distingui a sua paleta, pode dar-lhe, num futuro não muito longínquo, um lugar proeminente entre os artistas atentos ao significado da figura humana plasmada pela cor, além do peso e do volume da emoção, que não a vêm senão porque suscita a interpretação metafísica. E esse tipo de forma, que, assim, veiculada, é, por vezes, chamada a constituir a medida, enleada, para nào dizer revelada, duma certa gnoseologia.

Os dois dizem que não sabem quando sairão deste dilema do figurativo/não figurativo, dilema, porque, tanto quanto apurei, é, até certo ponto, vivido como tal. Mas o caso do Mito será sem dúvida mais simples do que o de Alexandre Silva; não apenas por causa da distância, já percorrida pelo primeiro, em termos de tentativas de escolher caminhos possíveis, mas porque ele parece testar essencialmente o lirismo "ambi-dextro" - da palavra e da coisa plástica - enquanto que o segundo quer fazer passar o seu talento, que, mau grado as insipiências, se adivinha considerável, pelo lirismo e a grandeza "metamorfoseada", um arrojado bicho de sete cabeças.

Falar do Movimento COBRA a propósito de pintores cabo-ver-dianos, dizer que dois pintores destas terras praticam uma arte que olhos acostumados às artes plásticas europeias (ou universais) poderão classificar como próxima do estilo COBRA não deve parecer estranho.

Tchalé Figueira reconhece-se como um pintor expressionista; José Maria Barreto não nega que segue a estética dos pintores soviéticos do realismo socialista, ele que estudou em Leninegrado; recentemente, um jovem artista cabo-verdiano intitulou-se surrealista. Numa tal conexão, a classificação não diminui nem menospreza, apenas clarifica. Terei a oportunidade de voltar à grelha classificativa. Para já, quero somente sublinhar que, num país como o nosso, sem tradição nem escola de artes plásticas, que começa, felizmente, a ter cultores nessa esfera, não é mau que algum esforço, para balizar e caracterizar, seja desde já encetado, não só numa atitude, digamos, pedagógica, como porventura, também, para dialogar com os próprios artis-tas no entendimento dos respectivos itinerários.

E um truísmo afirmar-se que todo o criador começa a exprimir-se, por via de regra, na linguagem dum predecessor, que lhe interessa ou admira, antes de descobrir ou criar, eventualmente, a sua própria linguagem. Por quê uma dada escolha e não outra? - eis o que ninguém, tanto quanto eu saiba, foi ainda capaz de determinar" ou esclarecer. E, no nosso caso: porque concebe Mito a fornia que lhe conhecemos e não outra? Por que Nelson Lobo, visto o seu começo(4), tem tido o percurso que nos vem mostrando? Por que Barreto, que fez estudos de Belas Artes na União Soviética, se exprime nessa linguagem do realismo socialista (corrente encorajada pelo bloco comunista, mas que nada inventou de verdadeiramente significativo do ponto de vista estético) e não da linguagem dos suprematistas (1913/15) (Malevitch e companheiros), por exemplo, que, esses se inserem numa escola de detentores de novas e importantes propostas e concepções das artes plásticas do século? (Certamente que a resposta não está relacionada apenas com as épocas destas duas correntes e a própria idade de Barreto). São questões que, em última análise, se pode ter por irrelevantes, ou menos irrelevantes, no contexto dum património estético que não o nosso, e, por esta razão, entre outras, justificam abordagem.

Provavelmente estes criadores, tal como os claridosos, terão que ser entendidos, mais dia menos dia, numa perspectiva geral da cultura cabo-verdiana, ainda que, por razões sociológicas ou históricas, o seu imaginário lhes possa permitir saltar uma etapa ou etapas, o que não fizeram a poesia e a ficção cabo-verdianas ou não lhes pareceu possível fazer.

Uma notação, feita há uma quinzena de anos, no quadro duma tentativa de periodização da poesia cabo-verdeana (5), poderá, no presente contaxto, ser parafraseada assim: "estamos em fase não de artistas plásticas que procuram fazer artes plásticas cabo -verdeanas, mas de artistas de Cabo Verde que fazem artes plásticas, já que preferem a essência universal à identidade aparente-telúrica ou nacional. E saltam as etapas, que, no caso da poesia, precederam a actual fase do predomínio da essência (a inefável identidade) sobre a identidade telúrica, a procura da condição irredutível ou ontológica sobre o identidade aparente ou nacional. O que não quer dizer que a realidade local (ou regional) seja esca-moteada, esquecida ou afastada: é, antes, primordialmente, fonte discreta mas inspiradamente legível,de captação desse inefável universal.

G.T. Didial

Jornal HORIZONTE, Quinta Feira, 6 de Janeiro de 2000. Página 8.


1. Mito, o irreverente. Entrevista conduzida por José Maria Varela. Horizonte, Praia, 4.1 1.99
2, Artista a tempo inteiro. Entrevista conduzida por MP. A Semana. Praia, 20.11.99
3A.G.T.Didial, O Cidadão. Mindelo, 10.9.99
4. T. T. Tiofe, Voz di Povo. Praia, 23.3.81
5. T. T. Tiofe, in Les Littératures Africaines de Langue Portuguaise. Actes du Colloque International. Paris, 1984


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