Para já, antes de penetrar no código pictórico de Mito das suas transfigurações e transgressões, do seu dinamismo expan-sivo e revolucionário, da sua orgia de cores e orgasmos metafóricos, não resisto à tentação de citar uma frase de Roland Barthes, na qual se enquadra perfeitamente todo esse universo Mito (lógico) - e cito: "Para escapar a alienação da socieda-de presente, não há senão um meio: a fuga para o futuro," o que pressupõe, evidentemente, que estou a referir-me a uma linha vanguardista, e, neste caso, até, futurista nas composições do Mito.
Entretanto, descendo aos pormenores, ou a uma análise detalhada das características inerentes à exposição feita recentemente, aqui na Praia, pelo Mito, direi - ou dizemos, já com os olhos de todos - que a primeira impressão que temos quando nos deparamos com a pintura do Mito, é a de que é diferente da que habitualmente encontramos na nossa praça, em termos de pintura cabo-verdiana ou de pintores cabo-verdianos. E automaticamente, uma pergunta, lógica e natural, insinua-se-nos no espírito: - diferente porque nos acode, prontamente, uma resposta, também ela lógica e natural - diferente, em primeiro lugar, porque é uma pintura que nos chama a atenção pelo inusitado universo que possui, e pela sua peculiaridade que nos leva a interrogarmo-nos - mas o que é que este artista pintou? o que é que ele quer transmitir com os seus quadros? O que é que está aqui retractado: uma pessoa? um animal? uma montanha? um mar? um istmo? uma ilha?.... enfim, assaltamos uma infinidade de questões para as quais não encontramos respostas imediatas. Daí que podemos afirmar, então, que a pintura do Mito não é pintura mediátíca, não é pintura transparente, de fácil leitura ou de pronta comunicabilidade. É pintura hermética, fechada, de difícil penetração. No entanto, percorrendo os olhos, atentamente, pelos quadros expostos, acabamos por criar uma certa empatia com a sua linguagem, que ressumbra a uma certa harmonia invisível, advinda - sentimos isso - de uma certa unidade cromática e estética, passível de conferir uma característica própria e individual ao conjunto da expo-sição, intrínseca a um estilo pessoal, idiossincrático.
De seguida, se não imediatamente, inferimos que existe também um elemento constante, fortemente gritante, em todos os quadros: a escrituralização. E, se aprofundarmos minuciosamente esse aspecto, chegaremos à conclusão que a maioria dessa escrita funciona como chave que nos possibilita o acesso a esse húmus mensageiro que são os poemas. Assim sendo, encontramos uma fenda ou brecha que nos conduz a uma transcendência do que vemos. O que nos parecia hermético vai-se então abrindo, abrindo e abrindo em pequenas clareiras que nos poderão guiar, ainda que por labirintos enigmáticos, a uma interpretação mais comedida da realidade sonhada e inscrita em cada quadro.
Através das nossas tentativas em alargar a compreensão das coisas - procurando outras fissuras, outras chaves que nos permitam penetrar o âmago desse cosmos, que se encontra velado por um aparente mistério inaudito-, todo um jogo complexo se despoleta entre o oculto e o evidente, o obscuritas e o apolíneo, que nos leva, consequentemente, a descobrir outros elementos relevantes, reveladores do que se passa por detrás de todas aquelas linhas e cores que se nos apresentam hieroglíficas, indecifráveis. Daí constatarmos que existe uma proposição importante, capaz de nos propiciar uma maior intelecção do que vemos, vai um passo, evidenciando-se-nos os recortes dos jornais e revistas - com frases entrecortadas, umas, destacadas, outras -, como mecanismos ou meios de nos proporcionar determinados sentidos às coisas, na óptica do contexto em que estão inseridos.
De facto, a obsessão da escrita está bem latente nos quadros do Mito - quer em escrituralismos incompreensíveis, confundidos com as cores que se lhes sobrepõem, quer em recortes de jornais ou colagens de textos, por entre traços " e arabescos de poemas - e incosítus, às vezes - ao lado de silhuetas e traços grossos, fortes, duros, informais. São Passwords significativos para o nosso percepto que fazem com que todos os dados, que inicialmente se nos afiguravam inequações, se transformem em simples equações, resolúveis à luz de um exercício matemático de abstração.
De qualquer forma, é de se dizer que o tipo de pintura feito pelo Mito é bastante original, relativamente ao arquétipo cabo-verdiano. Sintonizado com a estética contemporânea, universal, devido à correlação, ou inter-seccionismo que possui com as técnicas e estéticas modernistas, os quadros do Mito tornam-se altamente imagéticos e ambíguos, devido, exactamente, a essa capacidade de suscitar uma multiplicidade de interpretações.
Encontrando-nos frente a uma linguagem preponderantemente simbólica, iconográ-fica e multidimensional, conseguida através do acasalamento feliz entre as cores, a grafia e as figurações, mais os jogos do claro/escuro, das manchas e emplastros, a nossa leitura e interpretação se complexificam num verdadeiro entropio, em que toda a construção, no sentido de uma compreensão, desemboca numa desconstrução, ou em interpelações várias.
Acrescente-se a esse prisma caleidoscópico, do enunciar e do sentir, os recortes abruptos, ou as manchas uniformes e sincrónicas - estigmas de acutilantes contrastes, desafiadores e apelativos - confrontados com imagens esbatidas, figurativas, abstractas, deformadas ou sobrepostas, que se impõem como grandes desafios ao olhar e ao entendimento, salvaguardando a verbalização que desempenha um papel protagonizante, qual chave ou ponte que nos franqueia o outro lado das coisas, ou o atingir da outra dimensão das questões. E não há dúvidas que o repto ao voyeur é muito forte.
Passando aos temas abordados pelo Mito, a primeira
coisa a avançar é que quase só se pode fazer afirmações
com um halo de interrogação a envolver tudo. Há sempre
laivos de incertezas em todas as possíveis certezas adquiridas, pois
é difícil divisar os temas implícitos em cada quadro.
Entretanto, pressente-se que há uma dimensão lírica,
satírica, humana e onírica, sobrepujadas por uma grande dimensão
puramente poética, decorrente do delírio técnico-formal
das suas pinceladas e ra-biscos. Questões
metafísicas e existen-cialistas ganham ressonância no mundo hipersensível
criado pelo artista- um mundo muito seu, mas com impacto directo na reflexão
dos outros.
A tristeza, a espera, a procura, a resignação e a fatalidade
dos homens, dos animais e das coisas, estão bem patentes na cor pálida
e escura, rasgada por pequenas chispas de claridade, ínsita em cada
quadro.
Há um tom erótico, não explícito, mas implícito
nas formas e símbolos, sugestivos, delineados em traços, riscos
e arabescos, sob os quais subjaz todo um mundo natural, uma vida latente,
que atinge um espaço cósmico, principalmente quando se insinuam
ícones solares, luarentos e matemáticos.
A contemplação do Homem perante o Mundo é uma constante;
esse Homem que cresce perante um céu finito, agigantado-se, num eloquente
desejo de abarcar o mais além. É o Homem das ilhas, com o seu
puro iodo, que quer expandir-se pelo mundo fora, encontrando-se representado
por uma silhueta imponente que conquista o céu e o espaço que
o rodeia, sobressaindo-se na tela com os braços compridos e fusiformes,
sedentos do éter e do todo.
De facto, a percepção cósmica, aqui, é muito forte.
O cosmos e a sua incomensurabilidade, a sua intemporalidade, transpa-rece
no tudo e no nada das formas-não-formas, das super-novas, dos espaços-não-espaços,
das coisas-não-coisas, que acabam por imprimir uma certa sinergia,
uma certa movimentação aos quadros; uma afanosa procura, e uma
enorme satisfação, insatisfatoriamente saciável.
Entretanto, há momentos em que se pressente o assentar dos pés
firmes no chão, onde o mar, o peixe e os pescadores são retractados,
assim como a aridez, a secura e a desertificação da terra pobre
e desdentada, sob enluaradas luas, numa busca permanente de uma determinada
realidade vivida e sentida. Aqui, o azul e o castanho circunscrevem bem as
paisagens, as linhas e as acções - espumas de terra sobre, ou
sob, basaltos marítimos.
O mar, realmente, encontra-se em evidência, conjugando-se com poemas
que nos levam a ter algo mais que uma simples visão marítima,
e que nos fala, talvez, do amor; do amor aos peixes que, afinal, é
igual ao amor dos homens, numa clara alusão ao desencontro - que muitas
vezes acontece na vida - entre o amante e a amada, que se distancia em fuga,
como num poema de Arménio Vieira, reproduzido numa das telas.
Mutatis mutandis, é caso para perguntar - tendo em conta a densidade
de poemas existentes nos quadros expostos - se estamos perante um pintor-poeta,
ou um poeta-pintor, ignorando, propositadamente, neste caso, que esses dois
pressupostos meios estéticos possuem vertentes comuns que se interpenetram
e se confundem.
Mas Mito é também um pintor contador de histórias que
reconta, à sua maneira, as histórias das ilhas e da vida, com
um sabor a fábulas, numa linguagem de banda desenhada. A acção,
as personagens e o diálogo estão presentes nos seus quadros,
que retractam o trovador e a sua sereia; o músico e a sua guitarra,
compondo a sua balada; ou a bailarina, musa sensual, e a sua mímica
erótica, em oferenda à nossa sensualidade.
Artista de fina sensibilidade e da anterioridade do ser, Mito consegue plasmar
nas suas telas toda a sua alma e as imaginações mais fantásticas
da vida. O mistério, o maravilhoso e a fantasia patentes nos seus
sombreados, indefiníveis, e nos jogos de cores escuras e resplandecentes, desafiam-nos e subjugam-nos, concitando-nos
ao sonho e à arte.
Mas ele possui, não obstante, uma veia humorística e irónica,
eivada de linguagens, muitas vezes, óbvias e claras, reforçadas
por títulos indubitavelmente sarcásticos.
Navegando entre Picabia, Picasso, Klee, Miro, Delaunay e Kandinsky, ele possui
uma técnica eclética que vai do expressionismo - patente na
utilização das cores e das transfigurações, estas
muitas vezes em jeito dadaísta - e da exacerbação da
anterioridade ao abstraccionismo expressionista, geométrico e conceptual-
expresso nas cores, nos anti-figurativos e nas transgressões das coisas
- até um certo informalismo, ecológico e estético, próprio
de um Fautrier ou Wols.
Danny Spínola
NJC - Nº498, Quarta Feira, 16 de Julho de 1997. Página
14.
Revista Kultura Nº2, Julho de
1998. Páginas 168 a 173.
Livro Evocações. Páginas
319 a 325. Edições IBN - 2004.
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