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O artista plástico, cabo-verdiano, Fernando Hamilton Barbosa Elias, mais conhecido por Mito, radicado em Portugal, esteve recentemente na Praia, onde fez uma exposição de pintura e organizou uma oficina aberta destinada às crianças da capital. Essas actividades tiveram lugar de 9 a 21 de Junho, no espaço de expo-sições do INAC frente à Praça Alexandre Albuquerque, e de 23 de Junho a 2 de Julho no Centro Cultural do Mindelo.

NJC - Para começar, gostaria que me falasses dos teus quadros e dos materiais que utilizas na tua pintura?

Mito - Esta exposição que eu propus ao Fundo Nacional da Cultura - é um projecto que tem como suporte fundamental a recuperação de materiais em benefício da obra de arte, como por exemplo, a utilização do papel kraft, (esse papel de em-brulho), do papel de jornal, "papelões", tintas, que eu mesmo preparo, e gordura vegetal. Tudo começou em Lisboa, depois de eu ter notado que nos almoços de tertúlias as toalhas de papel ganham texturas interessantes, quando se mancham de vi-nho e de café. Daí fui pesquisando novos métodos e novas formas de suporte, novos tipos de papéis, dando-lhes toda uma preparação especial, a fim de os tornar mais consistentes para que possam ganhar longevidade, pois que o objectivo é fazer com que essas obras sejam um espólio cultural para quem as adquirir, e um bem cultural. E é essa técnica que tenho mostra-do às crianças aqui na oficina aberta, este espaço criado para as crianças da Praia fazerem uma pequena aprendizagem. Tenho estado aqui a ensiná-las a trabalhar; a pintar com diferentes tipos de materiais, a fim de tentar desmontar essa velha mentalidade que existe em Cabo Verde, de que só se pinta com materiais tradicionais como óleo, guache, aguarela, papel cavalinho, papel cartolina, etc, que são caros, pois que se pode utilizar muita coisa que não custa nada, aproveitando os materiais que se deitam fora como lixo, por exemplo, a utilização das garrafas de plástico das aguas, que podem ser utili-zadas como suporte para tintas, do café, do vinho, ou de qualquer coisa que possa manchar, do qualquer tipo de papel. Por isso costumo dizer - fazer do lixo um luxo. Se não tivermos papel utilizamos a pena de galinha, esponjas, ou os próprios dedos.

NJC-Qual a tua técnica, quais os procedimentos técnicos, ou processo de trabalho.

M - Bem, parece-me que já encontrei um estilo próprio, embora sem reclamar a verdadeira originalidade das coisas, por-que, hoje em dia, no mundo em que estamos, é difícil proclamar-se uma verdadeira originalidade das coisas, pois vivemos num mundo dominado pelas tecnologias de ponta, em que as informações correm rapidamente, de forma a que nenguém sabe já quem é o autor do quê. O que eu posso dizer aqui. relativamente ao meu trabalho, é que é a minha expressão mais original. Entretanto, esse trabalho não é definitivo, ainda, é apenas uma pesquisa. E um trabalho obsessivo porque é te-mático. Esse trabalho, que eu propus a mim próprio fazer, tem como tema "céu, terra, mar", pelo que está todo baseado numa paleta de azul e castanho.

NJC - Bem, eu estou perguntando quanto à técnica da pintura em si, se possui alguma marca, textura ou pro-cedimento pictórico que o diferencie dos demais ou que o poderá enquadrar num determinado tipo de pintura?

M - Eu não sei própriamente em que tipo de pintura me posso enquadrar actualmente, porque há já algum tempo que gostei de determinadas correntes, mas, no entanto, consegui libertar-me dessas amarras a determinadas correntes e ideias, a que se costumam chamar ismos da pintura e da arte. Hoje, quando as pessoas me perguntam o que é que eu faço em matéria de arte, onde é que eu estou enquadrado, eu respondo que estou enquadrado dentro da pintura moderna, independentemente de algumas vertentes surrealista, daidaístas, que também há na minha pintura, porque gosto de todo esse tipo de movimento, na medida em que já os pesquisei também, e já procurei informar-me sobre eles...

NJC - Eu acho que tens muito a ver, ou que há muita semelhança, entre a tua pintura a de Klee e Miro?

M - Sim, eu também acho isso. Com o tempo fui aprendendo e apercebendo-me que gosto muito do Klee. do Miro, e do Picasso, também, é claro. Mas gosto muito, ainda, ele Tapiés, um pintor catalão que utiliza muito essa técnica de recupe-ração de materiais. Só que ele é muito pesado, na medida em que faz trabalhos de grandes dimensões, que eu não ouso fazer. Por exemplo, utiliza materiais como portas gigantes, barcos, etc, que são desmesurados relativamente ao meio onde procuro integrar a minha pintura, do qual Cabo Verde faz parte.

NJC - E em termos dos teus temas, para além da generalidade "céu, terra, mar", que outros temas procuras retratar nos teus quadros? E também se procuras transmitir alguma mensagem, ou não ?

M - Eu procuro sempre temas bastante livres que estão geralmente ligados a mensagens poéticas. Parece-me que já encontrei a minha forma ideal de escrever poesia que é acoplar a poesia à pintura e que constitui também uma forma de transmitir mensagens escritas, aliadas a mensagens desenhadas ou pintadas, em que a escrita faz parte integrante ou constitui um elemento inerente à própria pintura. Quanto à mensagem, procuro veicular mensagens ligadas ao relacionamento humano, mensagens dé cariz tradicional como, por exemplo, do quadro "Na nó di sulada", com essa figura de espanto, essa figura refilona de mulher no mercado a discutir o preço, com a sua sulada bem amarrada com um nó; tenho um outro quadro exemplificativo, que é "Lacatena", em que sobressai uma mulher carregando peixe às costas, e discutindo, também, porque o som está sempre presente na minha pintura. Como não é possível aparecer o som, a música e a voz, tais como são produzidos, então eu procuro transmiti-los através da escrita.

NJC - De signos?...

M - Exactamente. Tenho um outro quadro que se intitula "Kusu ki bali só bistidu", que é uma pintura dirigida sobretudo a jovens (e que constitui, em si. uma campanha anti-sida), a fim de que possam perceber que actualmente todos os relacionamentos de cariz sexual passam, necessariamente, pela prevenção anti-sida e que têm de usar preservativos e meios de se precarevem contra a sida. Por isso eu acho que a minha pintura possui um quê de social.

NJC - E não terá um quê de político?

M - Mito é superior a qualquer forma política.

NJC - Na medida em que...

M - Na medida em que a política não dimensiona bem. A política é algo limitado e transitório. Por exemplo, em Cabo Verde existia apenas um partido político e actualmente já há alguns partidos, e agora, ou uma pessoa é de um partido, ou de outro, ou então de coisa nenhuma. E a minha pintura está enquadrada exactamente aqui, em coisa nenhuma, porque entendo que a cultura está acima de tudo isso, não tem de estar a enquadrar-se, ou a ser "éngagé", em nenhuma forma política.

NJC - Bem, eu estava a referir-me à política não como forma de filiação ou engajamento, mas sim, exactamente como atitude crítica, de intervenção social...

M - Quer dizer, politicamente, eu não sei bem. Eu acho que me enquadro numa determinada estética esquerdista de corrente política, não por ter filiações partidárias ou simpatias políticas, mas simplesmente porque reclamo alguma justiça social através daquilo que faço e obviamente que tem de haver alguma conexão política, mas sem estar enquadrado em nenhuma corrente política.

NJC - Há alguma crítica directa, ou....

M - Directa ou indirectamente existe sempre uma crítica cie cariz política, mas sem estará importunar ou perseguir pessoas, mas simplesmente como forma de reposição social.

NJC - As tuas pinturas possuem figurativos um pouco deformados ou com formas complexas, difíceis de enten-der, que os tornam um pouco herméticos. Porque é que não utilizas um outro tipo de figurativo, e até que ponto achas que és hermético ou não?

M - Bem, eu não utilizo as técnicas que são muito características e conhecidas por aqui, e que define por assim dizer, a pintura cabo-verdiana. Eu tenho um grande problema em enquadrar a pintura, em dizer se está para o surrealismo, se está para isso ou para aquilo, sobretudo nesta época em que vivemos. Pesca-se sempre qualquer coisa de cada ismo. Eu já cheguei à conclusão que a minha pintura está sempre baseada no desenho, o que tem a ver com a minha condição de dese-nhador. Não consigo conceber nenhuma pintura .sem estar a esboçar qualquer desenho nela. Apesar de fazer uma maior quantidade de trabalho, do género dos que apresentei agora, eu posso dizer que os meus trabalhos são essencialmente de cariz expontâneo. Há um ou outro idealizado, que possuem um carácter mais cerebral, que foi bem pensado e arquitectado mentalmente, etc. Em relação à questão de entender ou não entender a pintura, tem a ver também com toda uma educação visual que as pessoas devem ter ou não. porque, em Cabo Verde há um determinado tipo de pintura que já foi promovido e que, creio, já atingiu uma certa exaustão, não só ao nível dos temas. E as pessoas quando vão ver uma exposição de pintura, reclamam aquilo que tinham visto e aquilo que estão vendo. Mas tudo isso tem de passar por um investimento que devia ser feito através da comunicação social para alertar as pessoas relativamente a esse tipo de pintura, para que compreendam que quando vêm uma pintura, que, possivelmente não entendem, não devem preocupar-se porque eles têm de entender que não têm de entender nada, que apenas têm de gostar daquilo que estão vendo, porque ver uma pintura é a mesma coisa que sen-tir amor. Não se sabe explicar o que é o amor, mas se sente que se tem amor por uma determinada coisa; É algo inexplicável. Além disso, o tipo de pintura que eu faço não é como uma operação matemática, em que dois mais dois são quatro e não pode ser nada mais para além disso. As pessoas quando vêm aqui apreciar uma exposição, ou a minha pintura, elas também têm a sua própria criatividade; vêem determinadas coisas na minha pintura que eu nunca tinha pensado. Eu acho que isto é o lado criativo e positivo daqueles que apreciam a arte.

NJC- É a produtividade, a criação do próprio observador a partir do aparentemente já produzido. E o desafio da arte à imaginação do seu utente enquanto potencial artista...

M - Naturalmente que sim. Quando uma pessoa vem assistir uma exposição e vai apreciar uma obra de arte, há que exigir-se de si prógria uma certa reflexão. Não vai ver cada quadro num minuto, ou num relance de olhos. Não pode querer compreender o que lá está numa fracção de tempo. De facto, tem de reflectir um pouco. Tem de medir o equilíbrio, de medir o balanço existente entre a cor e a forma; tem de procurar encontrar alguma mensagem. Não pode chegar e dizer "isto aqui é uma lata velha", e pronto, é uma lata velha; é preciso que veja também O seu enquadramento, etc.

NJC - Tendo em conta que tu és desenhador, e que o desenho está sempre presente nos teus quadros, porquê essa obsessão por um tipo de desenho não usual, sem uma forma bem definida e bem delineada?

M - As deformações das coisas que aparecem nos meus quadros têm a ver também com o meu conceito estético de ver as coisas, porque entendo que na vida as coisas não são perfeitas. Por exemplo, nos rneus trabalhos procuro uma forma de perfeição que eu sei que não existe. E a forma de atingir essa perfeição, que eu sei que não existe, é dando o máximo de mim para encontrar uma forma estética de reproduzir coisas imperfeitas, porque a vida é imperfeita, não é um mar de rosas.

NJC - Já falaste, mais ou menos, da tua relação com a criatividade artística, da espontaneidade e da racionalida-de, mas eu gostaria que aprofundasse essas questões. Como é que a arte acontece em ti; quais as motivações e em que situação isso acontece?

M - Para essa exposição que fiz agora, eu dei o máximo de mim para atingir uma perfeição que não existe nas coisas. Trabalhei seis meses empenhadamente para poder fazer essa exposição, mas o que há de facto de cerebral nisso tudo é a tentativa de não fugir a uma determinada linha estética que concebi. Procurei traçar uma linearidade e irmandade entre os quadros, apesar de não se parecerem uns com os outros. Há sempre um cunho próprio, pessoal, que leva as pessoas a identi-ficar os quadros e dizerem é do Mito, e é nisto que consiste a parte ceebral da minha pintura. Mas, no acto de pintar em si. eu procuro sempre ser o mais espontâneo possível, deixar as coisas correrem. A inspiração existe de facto porque às vezes acontecem tiradas de génio, mas isso nem sempre acontece. Para haver inspiração, é preciso transpirar-se também, é preciso procurar muito, levantar-se todos os dias e trabalhar árduamente, ainda que não se tenha vontade, para se conseguir atingir determinadas metas. Eu trabalhei muito para poder chegar onde estou.

NJC - Quando dizes que é preciso trabalhar, queres, também, significar com isso que tiveste um percurso?

M - Naturalmente que sim. Quando vivia em Cabo Verde pintava em folhas de cavalinho (eu tenho centenas de trabalhos feito nesse material). Na altura, entre 82 e 85, já criava as minhas próprias pinturas, mas, como em Cabo Verde não havia galerias, nem museus, nem exposições, eu comecei a procurar as minhas informações sobre arte, nas enciclopédias, nas bibliotecas, e a copiar o estilo de Picassso e de Dali. Eu era um profundo admirador de Dali, gostava muito dele. Agora gosto menos de algumas coisas dele e gosto de outras, e passei a gostar muito de Picasso.

NJC - E kandinsky? Parece que vais um pouco nessa linha também.

M - Sim. sim, eu sempre gostei dele. Mas eu sou também um confesso admirador de Manuel Figueira...

NJC - Aproveito para te perguntar: o que achas da pintura cabo-verdiana, ou da pintura de cabo-verdíanos?

M - Sim, é a tal discussão que temos tido sempre a pintura cabo-verdiana. a pintura de cabo-verdianos e a pintura feita por cabo-verdianos. Pois.é a tal discussão eterna que existe, não é? Mas, porque? Hoje na nossa era é difícil dizer isto é daqui, não é dali. Com a globalização cultural que existe agora, com as informações que percorrem o mundo rápidamente, tudo digitaíizado ao nível da internet, então é bem difícil dizer esta cultura é daqui. Se bem que a cultura japonesa seja obviamente diferente da nossa, porque possui algo enraizado há mais de mil anos, e que os outros povos da Europa dançam as suas músicas folclóricas de uma determinada maneira. Sabemos que tudo isso teve um longo percurso até se tornar uma cultura característica de um determinado povo. Mas a pintura em Cabo Verde iniciou-se há bem pouco tempo. Portanto, nós não podemos dizer que temos uma pintura propriamente nossa, não é?

NJC - Bem, e quanto à pintura feita por cabo-verdianos?

M - Eu penso que existe um franco crescendo em matéria de arte. visual cm Cabo Verde. Apesar da pouca investida da comunicação social. Agora, a compreensão da pintura tem crescido em . Cabo Verde. Eu acho que a comunicação social devia ter um papel muito mais activo para alertar as pessoas, no sentido de procurarem ir de encontro à arte, sem se preocuparem com a questão de encontrar tudo bem explicado - isto é um peixe, sim senhor, e aquele um passarinho, pois tem de alertar as pessoas quanto à dimensão sonhadora que existem nas coisas; que um vaso de planta voltado de cabeça para bai-xo pode ter uma outra expressividade e dimensão. E este papel que a comunicação social tem de desempenhar, a fim de ser importante na educação das pessoas. Portanto, acho que actualmente há muitos pintores cabo-verdianos. Há o Tchalé Fi-gueira, há o Kiki Lima, que é um pintor sobejamente conhecido. Aliás, costumo dizer que a pintura cabo-verdiana começou com ele, na medida em que o vejo como uma espécie de claridade da pintura cabo-verdiana, levando Cabo Verde a muitos espaços no mundo... e temos ainda a Luísa Figueira, a Bela Duarte, o David Levy... acho que a pintura cabo-verdiana está no bom caminho - está bem entregue.

NJC - Voltando ao público cabo-verdiano e à sua relação com a pintura. Tendo em conta que a arte possui um as-pecto importante, que é preciso ter em conta sempre - a imaginação, que muitas vezes nao é tida em conta pelo público...

M - A mim, parece-me que o que nos sustenta na vida é exactamente essa capacidade de sonhar que temos. Não apenas a questão material. Pensarmos que temos um carro, uma casa e dinheiro para vivermos bem, para aguentarmos a nossa velhice com dignidade, ou para quando morrermos termos uma campa bonita sobre o qual as pessoas irão chorar. Tudo isso é bom na vida e para o seu equilíbrio, mas a vida sem o sonho não presta. Nós temos de sonhar na vida a fim de podermos projectar coisas.. Se o Homem não sonhasse o mundo não teria evoluído, nem ele teria ido à lua, nem a Internet, nem a poesia, nem a pintura teriam existido; O homem tem de sonhar sempre. Ele sonhou tanto que inventou o automóvel que o leva para lugares distantes e inventou o avião que o transporta de um país para outro, mas se nunca tivesse sonhado nada disso teria existido.

NJC - Queres dizer que o cabo-verdiano não é sonhador.

M - Não, não, o cabo-verdiano é naturalmente sonhador, é um ser bastante sonhador, cheio de criatividade no dia-a-dia. Aliás, o mais comum dos cabo-verdianos é sempre um homem bastante humorado, sonhador, pois é muito interessante ouvir os provérbios populares que são muito ricos em imaginação e sonho. Agora, por isso é que digo que a arte de desenhar e de pintar é algo que está longe da nossa sociedade, porque nós não tivemos a oportunidade de conviver com ela, é uma actividade muito recente no nosso pais. Só aconteceu após a independência. Já teve vários tipos de processo, desde a arte éngagé, de pintar Leníne, Amílcar Cabral, etc, etc, até esse tipo de trabalho que apresento agora, por isso digo que existe um crescimento na arte visual cabo-verdiana, porque de há dois anos. que vim fazer uma exposição aqui. a este momento, sente-se que há uma grande mudança; que.houve exposições periódicas aqui. Por exemplo, quando cheguei encontrei uma exposição interessante dos jovens da Kayarte, o que significa que existe realmente uma vontade para se fazer coisas e que existem pessoas que se preocupam com essa forma de estar na vida, e, inclusive, lutam por isso.

NJC - Portanto é preciso levar os cabo-verdianos a encontrarem-se com os seus sonhos através da arte?

M - Pois, por isso é que eu digo que a comunicação social tem de ter um papel importante nisso, que têm de divulgar a arte, de apelar às pessoas para apreciar a arte.

NJC - Queres acrescentar algo mais?

M - Sim, quero dizer a todos os meus colegas, àqueles que gostam de dedicar-se a esse tipo de actividade para continua-rem a produzir, tendo sempre em conta que a inspiração existe de facto, mas que existe mais transpiração do que inspiração, e que temos de reger-nos com aquilo que tivermos. Se não tivermos tela para pintar, para pintarmos em sacos de serapilheira, se não tivermos godé para tinta, para utilizar as garrafas de plástico; se não tivermos pincel, que utilizemos a pena de galinha, os dedos, os trapos, o que tivermos à mão, pois tudo pode servir para reverter as coisas e para fazer a reciclagem, em obra de arte.

Daniel Spínola

Novo Jornal de Cabo Verde Nº495/169 - Sábado 5 de Julho de 1997. Páginas 14 e 15

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