"A Semana" - Lágrimas de indigo, porquê Mito?

Fernando Hamilton Barbosa Elias - indigo porque tenho estado a pintar, sobretudo, com uma paleta carregada de azul, também a exposição é temática, mar, céu e terra, e lágrimas é o lamento do artista.

- Esta amostra é dedicada a duas pessoas, ao poeta Jorge Barbosa e a Mário Barbosa, seu avô. Porquê?

- A exposição é-lhes dedicada porque inicialmente eu já tinha um poema chamado Lágrimas de índigo, dedicado aos dois poetas, e assim resolvi dar o mesmo nome a um quadro, que é o quadro principal da exposição. Existe também um quadro dedicado ao meu avô, que é Cacolêcó, que é nome de um poema dele, que é uma espécie de justiça que tento fazer-lhe. A maior parte daquilo que ele escreveu é desconhecida e foi em crioulo. Depois do Pedro Cardoso Monteiro aparece Mário Macedo Barbosa.

- O Mito é também poeta, e de que forma a poesia e a pintura se associam naquilo que faz?


- Encontram-se em indigo, flutuando (risos).

- O Mito sente-se melhor como poeta ou como pintor?

Para dizer sinceramente eu sinto que a melhor forma que eu encontrei para escrever poesia é esta, através da pintura.
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- Então temos mais pintor do que poeta, propriamente?

-Sim. Poeta pintor ou pintor poeta eis a questão. Aliás tenho um quadro com um texto corrido de alto a baixo. A escrita aparece sempre, até como elemento gráfico inerente à própria pintura e como tramas.

- O Mito está envolvido num projecto de trabalhar na recuperação de crianças através da pintura. Gosta disso?

- Sim gosto, dado à capacidade e espontaneidade das crianças. E evidente que nem todas têm jeito, outras têm mais calma, umas têm jeito mais não têm calma...

- O que é isso de ser pintor em Cabo Verde, ou ser pintor cabo-verdiano no mundo, neste caso em Portugal?

- E uma questão difícil. Há bem pouco tempo estive a debater com Danny Spínola se existe pintura cabo-verdiana ou se existe pintura para cabo-verdianos. Eu acho que já existe um movimento forte, há vários pintores cabo-verdianos, o Kiki Lima ou o David Levy, o Manuel Figueira, o Tchalé... Para todos os efeitos existe já uma corrente, embora eu não saiba dizer se se pode dizer que existe uma pintura cabo-verdiana ou pintura para cabo-verdianos.

No caso concreto desta exposição qual tem sido a reacção do público?

- A reacção tem sido positiva. Acho que aqui têm feito exposições permanentes e isso educa de certa maneira o público, porque este tipo de arte esteve ausente da nossa sociedade durante largos anos.

- O trabalho que o Mito está a fazer é também um trabalho de descoberta?

- Eu estou sempre descobrindo, procurando... E uma proposta visual diferente, além disso, a exposição tem o seu lado de obsessivo, é muito escura, nos castanhos, nos azuis. Mas isso tem a ver não com o meu lado deprimente, mas com a te-mática a que me propus: céu, mar e terra: indigo.

- Para o público?

- Sim, porque é uma proposta visual diferente, a nível material, além disso, a exposição tem o seu lado obsessivo, porque é muito escuro, nos castanhos, nos azuis.

- Qual tem sido a sua vida nestes últimos anos, como pintor, como pessoa, que neste momento se encontra fora do seu país?

- Eu acho que tive uma grande evolução, não só como pessoa, mas como artista. Agora vivo em Lisboa, já estive noutras partes da Europa, antes só conhecia a pintura ou as galerias através das enciclopédias. Hoje já conheço algumas e isso marca de certa maneira a evolução do meu trabalho, não só como artista como pessoa também. Viver da arte é difícil em qualquer parte do mundo.

- Do ponto de vista artístico se não tivesse saído de Cabo Verde hoje não seria o que é?

- De certa maneira não."


JVL - Jornal A SEMANA Nº 307. Sexta Feira, 4 de Julho de 1997. Página 13.

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A SEMANA Nº 307

 

 

 

 

Fernando Hamilton Barbosa Elias, Mito, artista plástico nascido na Praia há 32 anos, expôs recentemente na capital e no Mindelo a sua última série de quadros, denominada Lágrimas de indigo, dedicada a Jorge Barbosa e Mário Macedo Barbosa, dois parentes seus. Poeta e pintor, em entrevista a A Semana, Mito indaga-se sobre o seu trabalho.