Indomável, rebelde na postura artística, ousado no uso da técnica,
Mito pinta incessantemente as suas telas numa garagem transformada em ateliêr,
em North Providence, no Estado de Rhode Island. Além do prazer visual
que suscita um simples browsing pelas telas, umas ainda esboçadas,
outras por acabar e algumas por emoldurar, Mito encanta, porque, nos instantes
em que não é artista, é pura Arte. Como um dos quadros
que me fez viajar - o "Pet Serenate"!
Vejo o " Pet Serenate ", este quadro a ser ultimado. Pressente-se, intrínsicamente, a música e a literatura nas tuas telas. Para ti a pintura é um residual cognitivo das outras artes ou é um mundo à-parte?
As coisas estão todas interligadas no mundo das artes. Minha experiência relativamente à pintura é uma coisa encenada, muitas vezes, daí a proximidade com o bandoneon do Saluzzi que me dá o compasso certo para a milonga del angel nos pincéis.
Como relacionas o dístico " Kurasson di Sibitchí " - que dá título a uma exposição tua - com esta tua técnica da bricollage, de re-formatar o " lixo nosso de cada dia ", e a tua cabeça de " cidadão do mundo "? Haverá para-doxo ? Jogo de espelhos ? Máscaras ?
Kurasson di Sibitchi foi a minha última individual em CV ; foi o meu melhor projecto desde sempre, uma exposição que me marcou muito e me fez crescer tecnicamente como realizador de performances de cariz visual. Digo isto porque a exposição teve uma componente multimedia - 5 curtos filmes digitais, que para mim foi o pico de toda a produção. A exposição foi dedicada essencialmente à musa crioula e ao seu couraçado kurasson di sibitchi onde nem a mais feroz das kumbossas faz mossa.
- Não peço que expliques a tua Arte, mas...que questões levantam as tuas telas?
Em cada projecto tento abordar um tema e fazer um loop exaustivo. Fazer uma espécie de odisseia dos círculos. Normalmente o meu bordão é sempre a afirmação do nosso crioulo enquanto língua. Apesar da pintura ser uma coisa visual, uma linguagem universal, continuo achando que pinto em crioulo.
- Uma curiosidade : tens personagens ? És narrador enquanto pintas ?
Muitos. Sou uma espécie de Nemo que viaja num mare calamus infestado de poesia e de musas crioulas, à procura de agua-lusa & terracota e dos seus terríveis ataques à lobbytomia.
- Como concilias o processo de criação com essa entrega à escrita, à fotografia, ao vídeo, ao desenho gráfico e à música ? Dá impressão de uma transe maluca...
O computador assume uma grande fatia de tudo o que faço neste momento. Desde que descobri que podia fazer música através de algumas enxadas electrónicas, passei a produzir a banda sonora dos meus filmes. Não quero ser mal interpretado. Não tenho grandes ambições no domínio da música, a não ser como um melómano bem aventurado. Mas de certa forma, tudo que faço a nível visual é marcadamente muito musical.
- Quais os teus próximos projectos ?
Estou sem pressa. Estou pintando diariamente, montando vários vídeos e fazendo soundscape para que não fiquem mudos. Brevemente teremos ecos do Selfish Tuna.
Filinto Elísio
Providence - Rhode Island - Abril de 2001
Entrevista publicada no Jornal Visão Internacional Nº6 - Brockton, 19 de Abril de 2001
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