
Nota publicada na agenda cultural do Jornal
da Região da Amadora -
Nº75 - Quinta Feira, 12 de Novembro de 1998. Página
2.
FAZER DO LIXO UM LUXO
MITO inspira-se sempre em Cabo-Verde. "Não consigo desligar", diz ele. Nasceu Fernando Hamilton Barbosa Elias. Cresceu lá, veio há 10 anos, e voltou por duas vezes. Sobre a saudade cita um poeta, sem dizer o nome... "Neste mundo ocupado por ausências, a saudade é a experiência principal". Esta nostalgia do que ficou para trás tem um quê de bom. A ela, vai Mito buscar a inspiração. "Quase sempre".
A exposição que hoje inaugura na Galeria Municipal da Amadora "fecha um ciclo". É a última parte de uma trilogia. Uma homenagem à décima primeira ilha: aquela que, a muitos quilómetros de África, longe das outras 10, tem recebido tantos caboverdianos, que se transformou para eles numa segunda terra-natal. Uma "ilha" chamada Amadora. Mito sentiu esse acolhimento, e quer dar conta dele na sua "primeira grande exposição em Portugal".
São "vinte e tal trabalhos", uma "pintura eco", toda ela "virada para a recuperação de detritos orgânicos vários, como jornais velhos e plásticos". Mito começou há sete anos com este tipo de trabalhos. E por "este tipo", entenda-se: criar, aproveitando aquilo que a sociedade industrial deita fora. Antes, esteve na AR.CO, mas confessa-se "auto-didacta". Ao que faz, chama Mito "arte silenciosa". E nessa arte, é o primeiro a dizer que "o caminho é longo": "ainda me falta palmilhar muitas galerias".
Do futuro, espera "trabalhar com crianças".
Para quê? Para "ensiná-las a desenvolver a mesma técnica
com que pinto... transmitir-lhes que também se podem fazer coisas bonitas
a partir do lixo". Porque para Mito, "tudo serve para fazer arte".
Claro que é difícil. Mas para ele, "é bem mais difícil
comprar um tubo de guache que custa 500 escudos".
Artigo pubicado no semanário regional A PENA Nº278 - Quinta Feira, 12 de Novembro de 1998. Página 12. Amadora - Portugal.
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