Como é que anteviu a vinda a Macau? Como
é que um pintor de Cabo Verde prepara uma exposição para
exibir na China, por ocasião do aniversário das relações
diplomáticas entre os dois países?
O convite foi-me endereçado em Setembro e desde Dezembro que estive
a trabalhar para esta exposição. Essa preparação
culminou nas oito telas que trouxe comigo e que agora estão expostas
na Doca dos Pescadores. Para mim, é importante ter sempre um mote
temático. A palavra, normalmente, é o meu mote, e daí
o facto de, ocasionalmente, aparecerem no meu trabalho colagens de coisas
escritas. Não que essas palavras tenham que ter um significado, podem
ser apenas uma proposta visual, um elemento gráfico.
E o tema da exposição em Macau é apenas as relações
da China com Cabo Verde?
Apliquei os parcos conhecimentos que tenho da China. Um amigo meu tinha um
caderno de poemas que se intitulava "Os poemas da China de mim".
Diga-se que isto são as pinturas da China de mim.
E o que é que há da China em si?
Leituras, alguma música, sobretudo influência cultural. Mas a
China é muito forte em tudo, e alguém atento deixa-se impressionar
pelo seu legado histórico, milenar. A China de hoje, o seu peso económico
no mundo, a sua influência geo-polítíca, enfim até
a sua religiosidade, o seu budismo, têm muito peso em todos nós.
As telas foram pintadas para serem trazidas a Macau?
Especialmente pintadas para esta exposição, sim.
E o que é que há da China hoje em Cabo Verde?
30 anos depois, há muita China em Cabo Verde. Começaram
por ser apenas diplomatas, depois construíram uma embaixada, a seguir
o parlamento na Cidade da Praia. Mais recentemente algumas infra-estruturas
desportivas, uma biblioteca e um centro de estudos.
Culturalmente, nota-se a presença da China?
Muito pouco, muito pouco.
A china está a construir a sua relação com os países
lusófonos sobre um alicerce predominantemente eco-nómico. Considera
que há espaço, que os países lusófonos ganhariam
com uma aposta cultural paralela?
Sem dúvida. Cabo Verde, que também é um país
jovem, iria beneficiar muitíssimo se a China investisse também
na educação, na dinamização cultural com uma
perspectiva didáctica. Com um trabalho ligado à docência.
A China tem muito a transmitir, muito conhecimento, em matérias como
o fabrico de instrumentos musicais, o fabrico do papel para artes plásticas,
na reciclagem, enfim num sem número de aspectos. Isso seria muito interessante.
Há alguma outra potência mundial que esteja, neste momento,
a influenciar culturalmente a vida das pessoas em Cabo Verde?
Bom, os franceses têm feito um bom trabalho desde há já
muitos anos. O Centro Cultural Francês tem um grande peso em Cabo Verde,
porque promove muito as questões culturais. Por outro lado, não
me parece que influencie de forma significativa a cultura local. O Centro
Cultural Português também tem contribuído para a internacionalização
de alguns artistas.
E de Macau, com que impressão fica?
Bom a imagem predominante é a de um gigantesco centro comercial non
stop. Por outro lado, já visitei alguns locais e, por exemplo,
no Centro Cultural vi exposições muito boas. Gostei muito de
Pequim, deixe-me dizer. Estive lá, a título pessoal, antes
de vir para aqui e pude mostrar o meu trabalho numa escola de artes, sendo
que as pessoas gostaram muito tanto do produto final como do processo. Estive
em contacto com muitas pessoas, mas para efeitos de pesquisa pessoal, algo
que faço com alguma profundidade quando viajo. As minhas pesquisas
têm fundamentalmente a ver com contactos espontâneos, para encontrar
pontes, estabelecer ligações, enfim para que haja um intercâmbio
de experiências. Em Pequim fui filmado enquanto pintava e ofereceram-me
vários tipos de papel e até um pincel imperial. Foi, de facto,
uma experiência fantástica. Em relação a Macau,
estou a estabelecer contactos. Vamos, no futuro, ver que frutos podem nascer.
Se houver um interesse em investir em Cabo Verde, gostava de participar nesse
processo na sua vertente cultural.
Macau está presente nas telas que traz a Macau, ou concentrou-se
apenas na China e Cabo Verde?
O tema é, de facto, a China. A primeira vez que ouvi falar de Macau
foi há muito tempo, através de uma prima minha que se casou
com um macaense. Era criança. A minha relação com Macau
foi sempre à distância, é a primeira vez que cá
estou.
E o que sente em relação à comunidade de Cabo
Verde em Macau?
Achei muito bonito o facto de haver alguns que, apesar de
cá terem nascido e por cá sempre terem vivido, desenvolveram
uma 'caboverdeaneidade' muito forte. Se calhar sucede a mesma coisa com portugueses
que nascem num espaço que não é o seu mas que depois
desenvolvem um apego à sua nação que é muito profundo.
Como é que considera que Cabo Verde poderia aproveitar melhor esta
atenção da China em relação aos países
lusófonos?
Cabo Verde poderia ganhar muito se se concentrasse no desenvolvimento de fortes
pontes culturais com Macau e com a China. Apercebi-me de outro ponto comum
interessante, que é a existência, lá, do crioulo e, cá,
do Patuá, embora este esteja quase em vias de extinção.
Seria bom que as relações incidissem sobre esses aspectos. Gostaria
muito, antes de me ir embora de Macau, de encontrar pessoas que saibam falar
Patuá. Todo o meu trabalho é desenvolvido com base na sonoridade
e gostava de registar o Patuá. A exposição que trouxe
chama-se Li Sim Sim, que é uma homenagem à percepção
sonora que nós temos da língua chinesa.
E o meio cultural em Cabo Verde? Tem florescido ou ficou-se pela internacionalização
de dois ou três nomes sonantes? A identidade caboverdiana é fortíssima...
As autoridades políticas estão hoje mais receptivas a projectos
culturais. Podia haver um maior interesse e outro tipo de investimento, mas
isso passa-se um pouco em todo o lado. Há cada vez mais cuidado, mais
atenção ao meio artístico, mas principalmente na expressão
musical. As artes plásticas ainda estão muito afastadas das
exportações. Mas há, de facto, uma emergência da
exportação cultural. A nossa força, a força de
Cabo Verde, é a nossa identidade. E a única coisa que podemos
exportar é a nossa cultura. E não só a música.
O lado visual tem sido escamoteado.
João Costeira Varela
HOJE MACAU Nº 1141, 3 de Maio de 2006
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