Mito (Fernando Hamilton Barbosa Elias), um dos artistas plásticos mais conhecidos e admirados do país, com vinte e três anos de actividade, volta ao Palácio de Cultura lido Lobo, nove meses depois de ter exposto no Tarra-fal, para mostrar a sua arte na Praia, cidade que o viu nascer. Em entrevista ao HORIZONTE, manifesta curio-sidade sobre como efectuar aponte na película a ser rodada em Janeiro, Cabo Verde a Cores (de que é persona-gem central), ana-lisa o estado das artes plásticas no país, aponta remédios para aprimora-mento, traça o seu percurso efala da mos-tra patente, desde segunda-feira, no referido palácio
Sobre o título Cabo Verde a Cores, a Silvão Produção Filmes vai
rodar uma película que retrata a história das artes plásticas
cabo-verdianas nos seus vários aspectos e que realiza um encontro de
gerações, experiências e vivências, em que Mito
inter-preta a personagem central. Parao artista, este anúncio tem efeitos
de curiosidade, uma vez que efectuará uma ponte entre os outros artistas
plásticos agentes no filme. "Considero que somos diferentes, mas,
ora aí está, complementamo-nos pela diferença",
sustenta.
O filme, que retrata também a história de Cabo Verde, anunciada
na estiagem, miséria, repressão, fome, analfabetismo, liberdade,
natureza, amor, solidariedade, e o quotidiano deste povo trabalhador, será
rodado na Praia e Lisboa de 1 a 26 de Janeiro de 2006.
"É interessante saber que existem pessoas com intenção de produzir um documentário peculiar. Aí está um momento, um bom momento, para falarmos da estética da imagem das coisas cabover-dianas", salienta o artista.
É este domínio alvo das críticas
de Mito. O artista é da opinião que, depois de trinta anos de
independência, existe uma estética algo kistch sob determinados
aspectos de o que é que pode ser uma estética da arte visual
das coisas cabo-verdianas. Afora uma certa distância das pessoas relativamente
à arte e uma certa confusão sobre a forma de fazer as representações
plásticas cabo-verdianas, "normalmente tipo postal: mulheres a
pisarem o milho e mulheres com milho à cabeça. Imagens comuns,
outrossim, às divergentes paragens".
São justamente estes fenómenos que levam o pintor a declarar
que a noção implícita ao significado da arte como uma
"linguagem" que se alcança com o número de informações
que se detém sobre a própria criação. Éeste,
talvez, o caminho para potências talentos atingirem umalinguagem na
matéria.
Mito, que é emigrante em Portugal desde 1989, critica, de igual modo, a existência do que designa uma certa síndrome de "Davincismo" (todos os obreiros de arte são potenciais Da Vinci reunindo as diversas formas de criação) e reclama alguma honestidade como meio de distinguir quem é artista dos que são desprovidos deste dom.
Para melhorar este cenário, o artista plástico
propõe a educação de artistas e crianças, no sentido
de um adequado domínio da arte universal no cultivo de uma área
estética, por meio de apresentação de exposições,
documentários relativos à arte plástica e a conceituados
museus e obras.
MOSTRA PICTÓRICA PATENTE AO PÚBLICO
Sob a designação Dia Santo na Lém di Mulato (Dia Santo Numa Nova Pasargada), os sete quadros expostos no Palácio da Cultura Ildo Lobo, desde a tarde da passada segunda-feira, 11, giram em torno de uma parábola delineada pelo próprio autor, uma narrativa minimalista em que cada quadro apresenta-se como uma nuance do outro e tem a pretensão de fazer com que o público vislumbre o quadro e reflicta-o.
A parábola Dia Santo na Lém di Mulato - temática em torno da qual giram as obras expostas, centra-se no torno do aniversário da independência nacional. Segundo Mito, com a criação deste título pretende passar uma mensagem através da significação "Dia Santo" como correspondente ao 5 de Julho e "Lém di Mulato" uma espécie de paraíso, onde todos os nacionais acertem vive-rem comunhão e com disposição de inexistência de sentimentos pouco edificantes, nomeadamente a inveja. A mostra assume-se como uma oferta do expositor anunciado num paraíso onde todos os nacionais possam reflectir e viver harmoniosamente.
Artista original pela intensidade e riqueza da sua obra, detentor de um percurso singular multiface-tado que percorre no mun-do da arte, a música, poesia, vídeo, ilustração cartoon, além da pintura, Mito já emprcendeu mais de cinquenta mostras (individuais e colectivas), fundou a revista de artes e letras Sopinha de Alfabeto, criou a capa do disco Bote, Broce e Lin-ha, do livro Na Asa do Vento, a capa da antologia Mirabilis de Veias ao Sol, datada de 1997, dos novíssimos poetas cabo-verdianos e a capa da obra poética Bóka Portu.
Dia Santo na Lém di Mulato pode ser visitada
pelo público, até dia ao 23 de Julho.
Cecília Monteiro
Jornal HORIZONTE Nº364, 14 de Julho de 2005. Página 10.
Dia Santo Na Lém Di Mulato
Outro grande exercício da liberdade terá
sido a exposição de artes plásticas Dia Santo na Lém
Di Mulato, do Mito, no Palácio da Cultura Ildo Lobo. Obviamente
que Mito aborda nas suas sete telas apresentadas a alegoria celebrativa da
Independência Nacional de que o próprio não deixa de
ser vaticínio. Fá-lo à sua maneira solta e irreverente,
com uma plástica ousada, uns títulos provocativos e uma personalidade
vincada. Mito, Nelson Lobo e Tchalé Figueira, na minha modesta opinião,
são donos de uma linguagem própria. Os seus quadros estão
impregnados da impressão digital {e da alma moderna) dos seus autores.
Isso, sem desmerecer os outros nas suas evidentes qualidades. Mas dizia, a
exposição de Mito encan-ta também pela simplicidade (que
não é a antítese, mas apenas o reverso da complexidade)
e pelo minimalismo na espacia-lização dos quadros. Ele deixa
muito espaço vazio, muito espaço em branco, muito cosmos para
a "respiração" do objecto. A Arte é matéria
em toda a sua frequência no Dia Santo na Lém Di Mulato...
Filinto
Elísio - S/Cem Margens - HORIZONTE Nº364,
14 de Julho de 2005. Página 19.
![]() |
![]() |
|||||||||||||||
![]() |
![]() | |||||||||||||||
|
| ||||||||||||||||