O artista plástico Mito, radicado actualmente
em Portugal, tem participado desde 1983 em exposições, quer
individuais ou colectivas, em Cabo Verde e Portugal. De entre as exposições
individuais, destacam-se: Artesanato & Pintura-Praia, 1983; Lágrimas
de Indigo - Praia eMindelo, 1997;Lantunana Mei di Mar - Expo 98 - Lisboa,
1998 ; Mare Calamus - Beja, Portugal, 2002 e Promessa di Marlargo - Lisboa,
2005. A exposição inaugurada, segunda-feira, confirma-nos, sem
surpresa, como escreveu José Cunha,"
um autor maduro, seguro e lúcido".
O que quer dizer o sonoro título da tua exposição?
Mito - Dia Santo é o 5 de Julho; e Lém di Mulato é uma espécie de mantra que estou a criar para um Cabo Verde melhor, longe do reino da inveja em que vivemos um pouco, devido ao desafogo material que vem-se sobrepondo àquela outra par-te que conhecíamos dos cabo-verdianos.
Apesar do novo outfít, cabelo mais curto, teus quadros reflectem certa amargura...
Mito - Não, amarguras na vida existem sempre; devem é ser recicladas e superadas de outras formas: não daquela forma em que estão empenhados muitos amigos seus através da criação de um conselho popular mas através dos meus trabalhos, sem desmerecer ninguém.
Como é que o artista revisita a sua cidade?
Mito - Com muito orgulho, e também com certa mágoa, devido à existência de certas coisas na minha cidade, que deviam estar melhor. Por exemplo, para mim, é uma mágoa ter de ver a que estado chegou a praça (Alexandre Albuquerque, no Platô), porque faz parte da minha infância; posso dizer que, de certa forma, a lagoa do meu umbigo encontra-se aqui.
Praia vai-se tornando numa cidade cosmopolita. Quais as vantagens e desvantagens deste crescimento?
Mito - O positivo é que a Praia é uma verdadeira congregação do povo cabo-verdiano. A Praia deve ser hoje em dia o único espaço de Cabo Verde onde se pode falar o crioulo de qualquer ilha do País, sem que as pessoas te perguntem de onde és. O negativo é que a Praia tornou-se um espaço enorme, onde há lugar para um pouco de tudo. Há lugar para surrealistas, para punk rock, para rap concreto, DVD, jeep 4 x 4, e outras coisas mais.
Qual o sentido profundo dos teus trabalhos artísticos?
Mito - São trabalhos em que exijo do público um papel participativo, através do olhar que ele lança sobre os meus tra-balhos. Se me fosse possível, faria as minhas exposições com um único quadro, como forma de obrigar a assistência a praticar esse exercício mais profundamente. O público é importante, porque, muitas vezes, descobre coisas nos meus trabalhos que eu nunca tinha imaginado: é o tal lado criativo do público e a tal magia desta forma de arte.
Falando concretamente da exposição que decorre no Palácio da Cultura. O que nos espe-ra?
Mito - É uma exposição bastante reduzida e minimalista; tem uma abordagem temática, com ape-nas sete quadros, onde se tem de conviver com o próprio espaço: não só pela forma como a exposição está montada, mas o espaço em que a exposição respira, obrigando o espectador, de certa forma, a reflectir sobre aquilo que vai ver.
Empregaste no princípio da entrevista a palavra reciclagem. Em que medida pode-se em-pregar este termo em relação à tua própria obra?
Mito - Primeiramente, porque a minha obra é feita de reciclagem, não só a nível temático, mas também técnico. Técnico, porque utilizo muito papel e materiais reciclados em beneficio da arte. Temático, porque tudo quanto leio, oiço ou converso com amigos é reciclado para o meu trabalho.
Constata-se uma certa encenação do artista nas poses perante a máquina fotográfica.
Mito - Eu entendo que o artista deve ter um
lado cénico, já que todo o meu comprometimento com a minha obra,
não tem nada de gratuito. As coisas são metodicamente idealizadas,
sem, todavia, castrar a espontaneidade que a arte oferece. Existe o lado
narcisista de me olhar junto da minha obra, posando. Sou eu e as minhas musas.
Entrevista conduzida por António
Monteiro
Expresso das Ilhas Nº188,
13 de Julho de 2005. Página 28.
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