Mais um regresso a Cabo Verde, mais uma exposição.
Sim, esta exposição vem na sequência do meu trabalhar
de reflexão sobre a cultura de Cabo Verde, mais especificamente de
Santiago, de onde provenho. Será uma mostra bastante minimalista, com
sete quadros de diferentes formatos e com uma paleta mais ou menos parecida.
Mas são obras que se complementam, cada uma é uma marca da outra,
funcionam quase como um espelho. Focam-se todas num único ponto fulcral,
como todas as minhas exposições anteriores, que se baseiam todas
num tema.
E o título desta exposição,
Dia Santo na Lém di Mulato, é já por si sugestivo.
O que podemos esperar desta mostra?
Dia Santo na Lém di Mulato tentará retratar um lugar
idílico de paz e harmonia onde os crioulos possam viver em equilíbrio,
longe do mundo de inveja onde a luta pelo material se sobrepõe a outros
valores mais espirituais.
É um alerta para a sociedade cabo-verdiana?
Não diria tanto. É normal que algo esteja a mudar no país,
a partir do momento em que entrámos na rota do progresso. Agora, há
que haver um certo equilíbrio e bom senso, porque normalmente este
desenvolvimento ergue-se sempre à volta do material, por vezes de forma
selvagem.
Tentará então, com esta exposição,
recuperar de alguma forma esse paraíso?
Sim, mas sem saudosismos bacocos, sempre com uma perspectiva do futuro, onde
Cabo Verde se apoia na sua herança e no seu passado para dar mais um
passo em frente.
Como se materializa na tela esse conceito abstracto
de paraíso?
Tendo em consideração a dignidade e a harmonia. Tudo o que a
minha arte preconiza é o amor, a paz. Embora seja uma missão
quase impossível, aquilo que faço busca incessantemente pelo
amor perfeito e pela felicidade.
E a arte é indispensável para essa
felicidade?
A arte é essencial para mim. Tive muito cedo a consciência que
essa era a minha vocação, sempre soube que este era o caminho
por onde deveria avançar. É doloroso, por vezes, porque também
tenho que cumprir prazos e ser muito prático, mas um artista também
é um proletário das coisas que faz. Só assim é
que posso avançar para a próxima etapa.
Pegando na deixa, qual será a sua próxima
etapa?
Tenho exposições marcadas para Outubro em Portugal. É
agora o meu horizonte mais próximo.
Para quem não o conheça, como explica
as suas imagens através de palavras?
É complexo, porque na maior parte das vezes a imagem vence a palavra.
Tudo o que se possa conjecturar é pouco para explicar determinada imagem,
determinada obra. No entanto, o meu trabalho exige-o. Tecnicamente o meu trabalho
é feito à base de materiais reciclados, o que lhe dá,
se quisermos, um certo cunho ecológico. Tematicamente é uma
busca constante pelo legado da cultura cabo-verdiana.
Para quem vive na diáspora é uma necessidade,
essa ligação constante com o sítio de onde se vem?
Certamente. Quando vivia cá estava-me nas tintas para a nossa cultura.
No entanto, foi a partir do momento em que fui viver para Portugal que ganhei
uma forte consciência da minha caboverdianidade que procuro com ânsia.
Sinto muito essa necessidade de afirmar as minhas raízes. A partir
desse momento todas as minhas referências começaram a tornar-se
forças e inspirações. Sou da geração, por
exemplo, dos que se sentavam à soleira das portas a ouvir histórias.
Daí a inspiração que procura
na tradição oral. Trabalha com base em recolhas que faz ou nessas
memórias de soleira de porta?
As duas coisas. Mas não são só histórias, são
imagens, também. Porque sou um viciado na imagem. Tenho milhares de
fo-tos, que mostram sítios, pessoas. De facto, esse lado humano também
me fascina, principalmente as relações humanas, que à
primeira vista parecem simples, mas não o são.
Reverte então, também, palavras em
imagens.
Na verdade, a palavra integra a minha arte. Às vezes parto de uma única
palavra para fazer uma obra. Ao dar título aos quadros, por exemplo,
pretendo também ligar o público a essa tela.
Já referiu que uma das suas grandes inspirações
é Santiago, uma ilha monocromática. Considera as cores do Mito
áridas?
De facto sou muito rígido nas cores que utilizo, limito-as. As minhas
cores não se integram no exercício kitsch no que deve ser a
pintura africana. Utilizo propositadamente um número reduzido de cores,
é um exercício que me imponho.
Porquê essa limitação?
É como quem toca blues ou morna. Se saírem de um determinado
registo, deixam de tocar blues ou morna e passam a tocar outra coisa qualquer.
São regras, não passa disso.
Como integra Portugal, o seu país de acolhimento,
no seu trabalho?
Integro-o no âmbito da procura dessa mesma caboverdianidade. Para mim,
nós somos a outra face de Portugal. O crioulo é, por exemplo,
mais uma nuance da língua portuguesa. E, para além disso, o
meu trabalho trabalha de forma subjectiva esses clichés que faz em
parte de ambas as culturas - a fatalidade, a saudade, o destino, o sonho.
Pedro Miguel Cardoso
A SEMANA
on line, 11 de Julho de 2005.