Chegou-nos Mito do Mare Calamus, oié!

Não se trata dum mito, apesar de eu próprio, que o conheço de rapazinho, ter que consultar os arquivos para lhe saber o nome de baptismo. Não se trata dum mito, e o seu traço, a um tempo suave e incisivo, irónico e sério como uma brincadeira de criança, impõe-se cada dia mais no panorama plástico nacional.


É que Mito está fora há uma década e meia, mas vem sendo dadivoso para com as ilhas do Atlântico Médio, onde a boa arte se exporta e a má chega a toda a parte. Nos finais de 2004, Mito trouxe ao Palácio da Cultura Ildo Lobo a exposição "Tementi Lua Ca Subi", e agora, neste ano da graça do 30º, inaugura "Dia Santo Na Lém di Mulato". Pelo meio, fez na li-vraria Mabooki, um espaço de cultura africana recentemente inaugurado em Lisboa, " Promessa di Mar Largo". Que cum-priu.


Segundo o compratiota José Cunha, banqueiro dum faro artístico de longo alcance, Mito faz "aguadas". Cumprindo um des-tino de cabo-verdiano, nas muitas aguadas que ainda nos restam até ao fim dos tempos.


Para Mito, "'Dia Santo' é o próprio 5 de Julho e ‘Lém di Mulato', uma espécie de paraíso onde todos os cabo-verdianos vivem em comunhão uns com os outros". Eis como a figuração disforme, onírica, de Mito pode modelar utopias que negam o conformismo, o contentismo e o fim da História, que na década de noventa enriqueceram uns tantos umbigos e muitos bolsos e sossegaram os desvalidos das certezas messiânicas.


Ainda José Cunha, a propósito da obra global de Mito, esse "maníaco da imagem": "O traço e a mancha há muito que se libertaram do ‘espartilho canónico' (...), ganhando em liberdade expressiva. O namoro com a ilustração está sempre pre-sente, e é sobre essa presença explícita ou invocada que o gesto narrativo assenta. Ao anterior rigor do traço contrapõe-se agora (...) a irregularidade ‘infantil', quase rasura (...), o uso restritivo da paleta onde as cores se rarefizeram, pobres, secas, esmaecidas, brandas, quase sombrias".


Mito emigrou da pequenez da sua Praia natal para o Mare Calamus, onde a pena e a calma se digladiam e convivem "suma" "fidjus di cancaram/ Lemba lemba, corneta tabanka/ (..) mocinhos tudo tchas kam/ Sol raganhado na karapati" (poema de Mito).


É desse Mare Calamus, afinal nem tanto assim longínquo, que Mito nos traz, mais uma vez, os seus sonhos vazados em pouca cor, nos tons lúcidos dos seus azuis e castanhos, como a terra do seu umbigo e o céu com que brinca a criança.


Vernissage hoje, 11 de Julho, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, às 18h30. A exposição manter-se-á por duas semanas.


Manuel Delgado

Paralelo 14 - 11 de Julho de 2005.

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