Esta exposição é muito mais do
que uma das muitas actividades a dourar o Trigésimo Aniversário,
cuja programação se es-praia no chão da República
em Novembro próximo. Efeméride celebrada com a humildade da
grandeza, a fazer o showcase do percurso do povo cabo-verdianos nos
últimos 30 anos e trazendo ao de cima uma miríada de actividades
culturais. Dizia-vos que esta exposição de titulo assaz
emblemático afirma a Independência Nacional, em todo o
seu esplendor e complexidade, tematizando uma nova estética, uma nova
Ética e uma ciência nova de se estar na Arte.
Por conseguinte, comemorar o Trigésimo Aniversario da Independência Nacional, faze-lo a partir do pathos e do ethos de se estar na Arte é conceder ao Lem di Mulato, com a generosidade que é apanágio do Artista, o seu Dia Santo.
Ora, Ilustres Presentes, vejam este painel de três peças conjunto intitulado Sampadiu, composto que motiza e matiza esta exposição Dia Santo na Lem di Mulato. A tríade Sampadiu compõe-se das seguintes telas: Milonga di nha Tchabeta, Djongo na Kassi e Mbipo. Este ultimo quadro tem o subtítulo, ou melhor, uma versão em língua portuguesa do título, nestes termos poéticos: As crianças atiram pedras a brincar, mas os pássaros morrem de verdade.
Ou não fosse Mito também um poeta de muitíssima nomeada.
Mas a proposta para um roteiro apenas começou. A tríade Sampadiu é apenas um pórtico. A caixa de surpresas ainda nos reserva, em rara beleza, o quadro Ta Sumara um Aiam. Ou, o mais provocante dos quadros, Armado em Pé di Galo. O sexto quadro carrega um nome que nos apanha a todos pela rama Mambá, algo que nos deixa de quatro diante de tanta energia plástica. No traço dito e pressentido, este quadro nos remete aos elementos matriciais de uma outra exposiçao do Artista Timenti Lua Ka Subi, apresentada no ano passado na cidade da Praia e na Vila do Tarrafal.
E o sétimo quadro, obra emblemática e que completa o numerário cabalístico, Melisma - 7, por titulo, marca o fecho deste roteiro plástico, ou tão-somente, um reinicio da mostra, eivada de proposta de circularidade. Alias, o confrade José Cunha, no distinto texto que avaliza este catalogo esta valiosa exposição, nos da a ideia de Mito como um artista de febril irrequie-tude, numa época em que o paradigma artístico soçobrou face ao império do efémero.
Desde Lágrimas do Indigo que Mito assumiu a circularidade labiríntica de, no viés da plástica singular porque luminosa e laminosa, modal, modo e mote, desassossegada e vigilante, lucida e louca, em crise e em critica, nesta circularidade, dizia, ele nos conta o seu conto, que é, por sinal, o nosso destino colectivo.
Direi que Mito ganhou dessa altura a sua identidade, a sua estrada de Damasco, para não dizer a sua personalidade vincada, nessa exposição na cidade da Praia e na cidade do Mindelo, em 1997. Mito torna-se arauto mesmo de uma nova lingua-gem, com matrizes e matizes de griot, contador de estórias, homem de uma oralidade na tela e de um grafitado olhar do mundo. Direi mais: que Dia Santo na Lem di Mulato é o ápice da partida inaugurada em Lágrimas do Indigo e isto já de si confere a esta exposição um selo de mostra histórica, valência adicionada a sua evidente qualidade.
Mito personifica o vaticínio da Independência Nacional, cujo Trigésimo Aniversário estamos aqui a comemorar. Por isso, com vénia para a sua santa irreverência cada vez mais necessária neste nosso Lem di Mulato, ousamos dizer que Mito é grande.
Texto de apresentação da
exposição de Mito, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, Praia,
11 de Julho de 2005.