Mito experimenta, com as suas viagens a Cabo Verde, uma espécie de eterno retorno. A cada regresso, ele
traz-nos na bagagem novos projectos. Desta feita, veio prestigiar a Festa da Juventude Graciosa, no Tarrafal, de Santiago, com uma exposição temática de quadros, intitulada Timenti Lua Ka Subi. E a lenda da noiva branca que acrescenta encanto e enigma ao monte Graciosa, da Vila do Mangue. Esta exposição também foi montada no Palácio da Cultura Ildo Lobo, na cidade da Praia, onde Mito nasceu. Para além disso, o artista apresentou ao público praiense os seus vídeo-poemas, numa semana de "curtas" organizada pelo Cybercafé Sofia. Tanto nos quadros como nos vídeo-poemas, Mito revela-nos uma linguagem moderna e inquieta, com uma linha estética própria. Longe de Cabo Verde há mais de 15 anos, ele vive à luz e à sombra, à música e ao silêncio (da essência das cores) num atelier de trabalho em Lisboa, seu universo de amar estas Ilhas. E é pela plástica que Mito nos concede o seu retomo. Eterno...

Filinto Elísio: Há regressos que são pródigos. Regressas a Cabo Verde como o retorno à casa paterna, depois de tanto deambular (e ver) o mundo e a casa te abre as portas com uma alegria quase bíblica. Trazes contigo Timen-ti Lua Ka Subi, uma exposição temática. Este novo regresso é uma afirmação ou uma confirmação do teu projec-to estético?

Mito: Reconfirmação, talvez. Há pelo menos, uma década que navego em Mare Calamus.

Um aspecto salta à vista nos teus trabalhos - a música. A sonoplastia emerge da tua linguagem plástica, quer nos quadros, quer nos vídeo-poemas. O ritmo está patente em tudo o que fazes. Será que na tua esfera ulterior, tal qual concediam os gregos antigos, é o espírito da música a mãe das artes ou, já que também és gráfico, tudo co-meça do Verbo como reza a Bíblia?

Na verdade a minha articulação estética é muito sonora. Mesmo quando trabalho sobre coisas puramente visuais, a fonte sonora é muito importante. Por isso é que eu adoro una giornatta particollare de Ettore Scolla, ou, então, conversation de Coppolla, onde a sonoridade tem um papel primordial. Desde criança que faço experiências sonoras utilizando várias fontes. No fundo, sou um músico que utiliza outras ferramentas para compor.

Na tua opinião, há uma arte plástica cabo-verdiana? Há uma linha idiossincrática nas artes plásticas em Cabo Verde?

Este é o eterno dilema do criador made in C V. Sempre confinado ao seu cutelinho. A arte será sempre uma coisa universal, quer na China ou lá em Fundom Báxu.

E em termos de correntes, escolas, linhas, professas alguma? Tens paradigmas na pintura e no cinema? Artistas que te tenham marcado e influenciado?

Sou um somatório de muita coisa. Do Buñuel, Catcház, Brughell e muitos outros.

Há uma dualidade intrigante em ti, A alquimia entre o vernáculo e o erudito, o profano e o sagrado, o vaudeville e o elitista. És mito ou realidade? Pureza ou produção?

A dualidade faz parte do equilíbrio de tudo. Estou sempre neste pendular macaréu. Por isso, o meu trabalho é feito de transparências e colagens sempre à procura de um equilíbrio que é difícil por vezes de explicar.

Como é ver o monte Graciosa neste regresso? Queria o teu olhar estético, por favor.

É sempre deslumbrante o reencontro com a mãe inspiradora. O monte Graciosa é o nosso Fuji, daí a minha homenagem a um dos locais sagrados desta terra.

Da terra ao mar, o monte Graciosa parece um dinossauro. Do mar à terra, lembra um elefante. E à noite, se há luar, tudo é lenda da noiva branca. De resto, os enigmas do Graciosa, ainda que balbuciados à boca pequena, não se decifram o amanhecer. Fecho os olhos e já mentalmente percorro a vila do Mangue. Timenti lua ka subi...

Entrevista conduzida por Filinto Elísio

Jornal ARTILETRA Nº 63/64 - Dezembro de 2004. Página 5.

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