
1ª entrevista em Cabo Verde,
para o extinto
Novo Jornal de Cabo Verde.
Entrevista conduzida por Fernando Monteiro
NJC - Vamos falar um bocado da sua pintura, já que vai fazer uma exposição. Ela tem três fases na exposição. Há unidade nessas fases ?
Mito - Há uma unidade. A exposição chama-se "MITOmorfoses". Porque estou a repescar imagens e esboços de coisas que fiz há cerca de dez anos atrás, ando a retocá-las, a dar novas formas e continuidade aos traços antigos. É por isso que é um esquisso em Mitomorfose, que vai para pintura, passa para a fotografia e volta outra vez ao desenho. E têm todos uma interligação.
NJC - Temática ou formal?
Mito - A temática e a técnica, ambas as coisas.
NJC - Qual a técnica que mais tem utilizado?
Mito - Tenho vindo a pesquisar várias técnicas. Tenho pintado a óleo, acrílico, tinta da china e utilizado vários suportes. Tenho utilizado o papel texturado, pano cru, tela, e até com uma certa coragem, a serrapilheira . E no que toca às aguadas, que vou apresentar, têm um cunho muito especial porque são feitas com pigmentos pouco usuais na pintura corrente. Tenho utilizado tinta estenográfica, gordura para fritar - óleos, - parafina, tinta da china, café, vinho, ...
NJC - Tem conseguido boas tonalidades...
Mito - Sim, tenho conseguido. Por exemplo, no que toca às aguadas, elas têm uma forte relação com o mar porque são feitas à base da mancha de azul da tinta estenográfica, o que nos leva a reflectir o mar. Isso faz-me lembrar aquilo que sempre o poeta Vadinho Velhinho diz, que nós somos uma espuma de terra, porque estamos rodeados de mar e mar e a espuma de terra onde vivemos nós. Utilizo a forma do peixe como elemento primordial que povoam o mundo destas aguadas.
NJC - Como essa técnica nova, consegue uma boa textura?
Mito - Consigo sobretudo utilizando algum papel texturado, tenho utilizado, sobretudo para pintar as aguadas, um papel de encadernação, um papel pouco usual na pintura, com uma textura óptima; o efeito é muito bom, espectacular, diga-se de passagem.
NJC - Mas em termos de conservação?
Mito - De conservação, julgo que sim. Porque o papel é forte, duma gramagem boa.
NJC - O que é que o levou a tentar essa técnica.
Mito - Essa técnica surgiu à mesa
de um café brincando com um aparo. Depois reparei que a mancha era
fluida e bonita, então passei a utilizar essa técnica, aplicando
suportes com maior consistência.
Em Portugal, fiz agora no início deste ano uma exposição
em parceria com um escultor chamado Gonçalo Condeixa, que nem sequer
conhecia. Os responsáveis da Galeria Gymnásio, onde já
tinha feito uma exposição, no mês de Novembro, foram visitar
o meu atelier, quando viram essas aguadas convidaram-me a fazer uma exposição
em parceria com Gonçalo Condeixa, cujo trabalho também tem uma
forte relação com o mar. São peixes feitos em ferro forjado.
Como já disse, nem sequer conhecia o escultor, mas o dualismo foi perfeito,
porque parece que as minhas aguadas são um esboço fiel da esculturas
dele e as esculturas dele parecem que submergiram enferrujadas das minhas
aguadas..
NJC - E o público, como reagiu?
Mito - A exposição em Portugal
foi bem aceite, foi difundida por algumas rádios, tivemos notas em
alguns jornais. Foi bem aceite.
NJC - Nesta exposição, o tema principal foi o mar?
Mito - O tema principal foi o mar porque todos os trabalhos têm uma forte relação com o azul da anilina que uso, que faz sempre recordar o mar, os líquidos, a fluidez das águas, os oceanos,...esta aventura é um jogo de leveza e tranparência.
NJC - Mas continua a utilizar muita linha
Mito - Sim, a linha é uma constante. Repare nos desenhos que faço à tinta da china, é uma linha nua e continua. Costumo comparar o desafio do desenho à linha com música acústica.
NJC - Mito já deixou de fazer caricaturas ?
Mito - Não, ainda faço. Tenho desenvolvido uns bonequinhos para ilustrações. Gosto muito deste meio de comunicar. Tenho vindo a colaborar com algumas caricaturas, embora de forma dispersa, em alguma imprensa de Cabo Verde. Quando ainda existia o Voz Di Povo, publiquei alguma coisa, publiquei uma há pouco tempo no Correio Quinze. Trouxe uns quantos trabalhos que gostaria de ver publicadas na Fragmentos, através do Zé Hopffer. Sempre nutri um grande gosto pela caricatura e pela sátira política, apesar das coisas que tenho publicado na imprensa de Cabo Verde ter um cunho mais cultural. No fundo o cartoon político são como os iogurtes, têm um prazo reduzido.
NJC - Voltando a exposição, disse que está ligado à fotografia. Porque essa ligação desenho, pintura, fotografia?
Mito - O desenho, a pintura e a fotografia são técnicas e ferramentas de trabalho. É como o marceneiro a trabalhar com a serra eléctrica, a serra propriamente dita, com escopo, com martelo, - são ferramentas diferentes. Por exemplo, o catálogo foi todo elaborado por mim. Toda a concepção gráfica e digital, foi toda feita por mim e aí aparece a fotografia.
Os meus temas são cabo-verdianos
NJC - Diga-me, como é que um artista plástico aparece, de
repente, a fazer fotografia?
Mito - Porque a fotografia tem uma forte relação com
essas coisas, tanto com a pintura como com o desenho. Porque a fotografia
regista através do movimento e da luz, certas expressões que
no desenho e na pintura não se consegue.
NJC - Mas a sua pintura não tem muito a ver com o realismo que a fotografia regista?!
Mito - Depende do realismo. Tenho estado a fazer fotografias que têm um realismo muito próprio, que é captar as mensagens de luz, aliás, a fotografia é isso mesmo, um jogo de luz-sombra, sombra-íuz.
NJC - Entretanto, não têm uma ligação directa com o estilo que o Mito pratica na pintura?
Mito - Eu penso que sim, que estão interligadas. Porque eu acho que giro em torno de um círculo: as aguarelas estão para as fotografias assim como a pintura está para o desenho, as coisas vão girando ao contrário, às vezes. Porque determinadas imagens que eu concebo em desenho partem da fotografia. Às vezes posso fotografar um elemento de uma parede escava-cada, que me chamou muito a atenção, e depois procuro reproduzir essa mensagem através do desenho, tento reproduzi-la também através da pintura. Por isso que têm todas uma forte ligação umas com as outras.
NJC - Mito disse que não tem que pintar mulheres, peixeiras, cenas desgastadas...
Mito - Bem,...quer dizer.., o que é a pintura cabo-verdiana? Eis a grande interrogação. A pintura cabo-verdiana não passa sómente por uma reprodução fiel de uma realidade que nós conhecemos, uma .realidade gasta. A maior parte da represen-tação plástica cabo-verdiana mostra o realismo, que é uma mulher com um pilão, uma mulher com balaio na cabeça. Pronto, eu acho sinceramente que os meus temas são cabo-verdianos. Por exemplo, as aguadas têm a ver com o mar, as pinturas têm a ver com uma outra coisa qualquer, os desenhos com mais qualquer coisa.
NJC - Sim, mas são mais para o surrealismo?
Mito- Sim, mas, contudo, isso não deixa de ser cabo-verdiano. Isso é uma forma de abordar outras realidades...
NJC - Uma leitura diferente da que habitualmente se vê, não é?
Mito - Pois, isso é uma forma de abordar outras realidades cabo-verdianas.
NJC - Vamos falar de outra coisa. A poesia, em que é que fica ?
Mito - A poesia fica para os momentos de uma intimidade muito mais própria. Tenho vindo a produzir uma poesia que é bastante plástica. As aguadas têm um forte cunho com a poesia. Uma das leis das aguadas, é escrever poemas em cima das coisas que pinto. Cheguei à conclusão que esta é a minha melhor expressão poética.
NJC- Então, agora está a dedicar-se mais às artes plásticas do que à poesia?!
Mito - Eu não sou poeta. Escrevi alguns poemas que foram publicados. Mas não deixam de ser poesia. Sou um poeta da imagem.
NJC - O que acha da pintura cabo-verdiana?
Mito - Eu acho que a pintura cabo-verdiana está muito bem representada agora. O Kiki Lima é bastante conhecido em Portugal - não só, mas sobretudo em Portugal -, o David Levy, gosto muito também do grupo lá de S.Vicente, gosto muito dos trabalhos de Manuel Figueira. A nossa exposição aquando do Congresso dos Quadros Técnicos Cabo-verdianos em Lisboa foi muito importante, apesar de ter passado um pouco (impune) à comunicação social portuguesa. Mas isso tem muito a ver com determinada importância que deram a outras formas de expressão do Congresso, do que propriamente com a exposição de artes plásticas que era paralela ao Congresso.
NJC - Não acha assim mesmo, apesar dessa representatividade, no bom caminho que diz estar as artes plásticas a encetar em Cabo Verde, não acha que ainda há uma certa marginalização das artes plásticas dentro da grande marginalização que a cultura sofre?
Mito - Sim, acho que sim. As artes plásticas em Cabo Verde sempre viveram no esquecimento. Aqui em Cabo Verde, quando se fala de arte propriamente dita, pensa-se sempre na poesia, ou na música, ou nalgum artesanato. Nunca se vai mexer na pintura porque ela é nobre, é uma coisa que vingou muito mais depois do 25 de Abril. Na altura da independência houve várias exposições, talvez tenha sido aí o começo dos pintores cabo--verdianos.
NJC - Será que, dentro do nosso universo cabo-verdiano, a pintura é uma arte de élite ?
Mito - É preciso justificar isso. Porque se a pintura pertence à elite, a poesia tambem lá mora , a música não tanto, talvez por ser mais gritante.
NJC - Há uma pintura popular, feita pelo povo?
Mito - Existem formas de piniura popular. Eu
gostava de um dia poder fazer um levantamento sobre a pintura de cariz popular,
que eu sei que existe porque, já vi por aí. Por exemplo, quando
entro no Café Portugal, está pintada aquela coisa na parede,
eu considero isso arte popular cabo-verdiana, apesar de mostrar uma imagem
de Lisboa. Outro exemplo, no Café Vulcão há aquele vulcão
em chamas, eu chamo isso arte popular, pintura como arte popular. Ou, enlão,
em S.Vicente, nalguns bares e cafés que eu conheço, as pinturas
de Armando Pinheiro, por exemplo é realmente arte popular aplicada
à pintura.
NJC - Mas de qualquer das formas constata-se essa marginalização?
Mito - Não é bem marginalização: existe mais esquecimento do que marginalização. As artes plásticas aqui cm Cabo Verde não ocupam o lugar que merecem. Mas isso não passa só pelas exposições. Por exemplo, eu se faço uma exposição, não quero que vão lá só meia dúzia de pessoas do plateau. Queria que houvesse visita de estudos com crianças da escola primária para tomarem conhecimento com esta forma de conviver. É preciso haver mais exposições para haver uma educação visual mais ampla aqui em Cabo Verde.
NJC - Não teve dificuldades em montar a exposição?
Mito - A exposição ainda não
está montada. O principal já tenho à mão: os quadros,
catálogos, cartazes, o que realmente falta, é fazer a montagem,
e arrancar com a exposição no dia 18.
.
NJC - E em Portugal? A vida do artista cabo-verdiano não é
muito facilitada?
Mito - A vida do artista em Portugal é muito difícil, não só pelo facto de ser cabo-verdiano, mas por ser fundamentalmente um artista.
NJC - Nº 274/59, Sábado 15 de Abril de 1995. Páginas 10 e 11.