MITO E A ARTE DO SILÊNCIO

MITO E A ARTE DO SILÊNCIO

Expresso das ilhas - Mito, num meio pequeno como o nosso, como funciona a convivência entre os artistas?

Mito - Há um certo azedume que paira na convivência entre todos os artistas aqui em Cabo Verde. Eu gostaria que nós desenvolvêssemos uma forma mais leve de estar uns com os outros (nu xinta na tchom, nu papia bem di cumpanhêro) porque isso só vai solidificar o nosso projecto cultural. Existe um certo espírito futebol clube: as pessoas falam dos outros como se tratasse de uma final entre a Académica e os Travadores.

EdI - Portanto, os artistas deviam acentuar mais os pontos comuns do que as suas diferenças?

Mito - Eu acho que sim. Tenho vindo a desenvolver trabalhos em que o afecto pelos meus companheiros está sempre presente. No pacote vídeo que apresentei no âmbito das actividades paralelas ao Festjazz-2003, que, infelizmente, não foi visto por alguns artistas que eu gostaria que tivessem comparecido, falei sobre a pintora Misá, tenho um documentário sobre ela; falei sobre o Vasco Martins, tenho um vídeo dedicado a ele; falei sobre o Pedro Moreno, tenho um documentário sobre o Pedro Moreno; sobre os irmãos Mendes e Boy G Mendes e também sobre o Horace Silver. Tenho vários documentários na forja sobre outros pintores, José Maria Barreto e outros.

EdI - Verifica-se que muitos artistas cabo-verdianos só conseguem realizar-se fora das ilhas. Qual a explicação?

Mito - Se calhar é um drama mundial. Alguns pintores portugueses são famosos lá fora, ou foram descobertos lá fora. A Maria Helena Vieira da Silva triunfou primeiramente em Paris. A mesma coisa aconteceu com a Josephine Baker, em que a música jazz só começou a ter o estatuto de música intelectual depois que os parisienses aclamaram o Sídney Bechet, o Miles Davis e outros. É um problema comum a todos os países e Cabo Verde não é excepção.

EdI - Para o pintor cabo-verdiano não constitui o poder de compra uma ba-rreira entre o artista e os quadros que ele gostaria de ver mais divulgados?

Mito - O dinheiro é sempre uma barreira em qualquer tipo de sector. Acontece que eu vivo de trabalhar com imagens, não faço outra coisa, tenho que vender quadros, se não vendê-los tenho que vender algumas imagens para serem estampadas gráficamente, ou fazer fotografias, quiçá vídeos; tenho que viver com as coisas que sei fazer, não posso entrar na economia, nem noutro tipo de actividades porque não fazem parte do meu sector profissional.

EdI - O Palácio da Cultura, a Biblioteca Nacional, o Centro Cultural do Mindelo e os outros centros culturais do País têm contribuído para uma maior divulgação das vossas obras?

Mito - Acho que sim, mas devia haver uma maior dinâmica. Existe um crescendo; só pelo facto de hoje em dia existirem vários espaços onde albergar uma exposição já é altamente positivo. Só pelo facto de termos hoje em dia a Biblioteca Nacional, o Palácio da Cultura, o Centro Cultural Francês, os Paços do Concelho e outros, é extremamente importante, porque me lembro de quando eu era criança, as exposições de desenho e de pintura que eu vi, eram feitas nas montras da Farmácia e na Casa SERBAM. Portanto, já demos um grande salto.

EdI - Qual seria o próximo salto?

Mito - Eu acho brilhante a criação de um acervo, mas não serei a pessoa mais indicada para dar conselhos na gestão de um espaço cultural. Penso que devia haver exposições permanentes, devia haver uma calendarização anual ou semestral, mas que abrisse aos domingos, porque o público que vai à missa também precisa de ver arte, precisa conviver com esta forma de estar na vida, visto que, lamentavelmente, aqui em Cabo Verde, as pessoas só convivem nos bares; devíamos criar formas alternativas das pessoas estarem umas com as outras, uma forma mais saudável até.

EdI - A pintura é hoje em dia uma arte maior ou menor?

Mito - Não sei se é maior ou menor. Só sei que é sempre uma arte do silêncio e isso, às vezes, põe a pintura um pouco a pé coxinho, a par da música, por exemplo. A música é sempre mais barulhenta, quando uma pessoa liga o violão à electricidade e faz uma nota comparecem mais pessoas, mas eu convivo bem com isso.

EdI - Arte do silêncio e arte também estática...

Mito - A pintura não é estática: o quadro na parede pode parecer estático, mas há sempre um movimento, sempre uma sugestão de movimento. Então é a cabeça das pessoas a funcionar nesse sentido. .. Por exemplo, a grande arte da pintura que eu faço, reside também no espectador, porque o espectador, muitas vezes, consegue vislumbrar coisas que eu não tinha equacionado. Isso por si só é também arte maior.

Entrevista conduzida por António Monteiro

Expresso da Ilhas Nº93, 17 de Setembro de 2003. Página 22.

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ginhoelias's picture

Agradecimentos : Livraria Ler Devagar, XUX, Simão, Raquel Castro, Maria do Alto Minho, João Sodré.

ginhoelias's picture

Exposição que decorreu de 22 a 28 de Agosto de 2002 na Livraria Ler Devagar no Bairro Alto em Lisboa, englobando 10 telas e 10 vídeos. A 1ª mostra de vídeos em Lisboa.