Timenti Lua ka Subi

12
Sep

Timenti Lua ka Subi

Sob a consigna Timenti Lua ka Subi (Enquanto a Lua não Sobe), os quadros expostos no Palácio da Cultura Ildo Lobo (Platô).desde a tarde de segunda-feira, 8, giram em torno da lenda de Noiva Branca, fruto de uma pesquisa realizada, pelo autor, há já algum tempo, em Tarrafal de Santiago. Aliás, primeiro estiveram expostos naquela parte nortenha de Santiago, em resposta a um convite da Festa Graciosa da Juventude. "Gostaria de expôr em todos os pontos de Cabo Verde, nomeadamente em Coculi, Paúl ou Ribeirinha, desde que hajam apoios e condições próprias. É que quero fazer com que a arte chegue lá onde as pessoas não tenham arte", manifesta.

Depois do Palácio da Cultura, três quadros de Mito estarão expostos na Arte Lisboa (Feira de Arte Contemporânea), que decorrerá de 18 a 22 de Novembro, na capital portuguêsa. Em Janeiro de 2005, Mito expõe numa das livrarias lisboeta.

A lenda de Noiva Branca - temática em torno da qual giram as obras expostas - conta que uma noiva tarrafalense, foi abandonada no altar, desesperada, humilhada e ferida no seu mais profundo ser, subiu ao Monte Graciosa - o ponto mais de referência daquele concelho nortenho de Santiago - e atirou-se ao mar, morrendo afogada. Ainda hoje, quando o luar se espelha no mar, cria-se uma espécíe de áurea naquele Monte, levando com que as pessoas acreditem que é o brilho do espírito da desafortunada Noiva Branca, que há-de vir "para alegria, gozo e satisfação" dos tarrafalenses.

Apresentada pelo colunista, o escritor e jornalista Filinto Elísio, Timenti Lua Ka Subi pode ser visitada até o dia 20.

CICLO DE VÍDEO

O Palácio de Cultura vai ser palco, durante duas semanas, de um ciclo de vÍdeo da autoria de Mito "Convidaremos, em cada sessão, um artista para falar da sua experiência, percurso, razões e motivações da sua escolha", anuncia aquele pintor plástico e poeta, com alguma incursão no audio-visual, para quem "os jovens estão sedentos de cultura".

A colectânea de vídeos de Mito fala do artista, mas, também, de outros criadores, como forma de dar corpo a um dos poemas do quadro Lua di Noiba Branca, que conclama : "Nu xinta na tchon/Nu papiá dretu di kunpanhêru/Si krê nós amizadi /Ê tchuba na bindi/Ê ta tchuputi runhu sima malagueta/Ma é ka ta mata".

A este propósito, Mito assegurou ao HORIZONTE que no ano que finda despertou-se para a poesia, sobretudo em crioulo. "Foi a partir de uma chamada de atenção de Boy Gè Mendes, na sequência da musicação de um poema meu", revela, para notar que, a partir desta data. as coisas surgiram "moda agu ta kori".

AUTO-APRESENTAÇÃO

Mito é um artista que procura transmitir a sua cabo-verdianidade e exprime o que faz com acerto e amor. O retrato foi feito ao HORIZONTE. pelo próprio artista, para quem a pintura cabo-verdiana "está a dar passos seguros, com qualidade, destreza e aprimoramento técnico".

O artista espera uma grande afluência ao ciclo de vídeo - sobretudo dos liceais -, manifestando, desde já, a sua disponibi-lidade em "responder a quaisquer tipos de questões" ligadas à sua vida e desempenho. Reitera a sua vontade e abertura em ir mostrar a sua criatividade vídeo, nas outras ilhas, sobretudo em São Vicente. E conclui: "Espero que a nossa Televisão mostre o meu trabalho e criatividade, de modo a que os jovens conheçam e saibam o que estou fazendo".

Mito já participou em várias exposições colectivas e individuais, sendo a primeira, em 1983, no Centro Cultural Francês da Praia. Natural da Praia, vive e trabalha há mais de década e meia, em Lisboa, onde, entre outros, ilustrou um dos cantos d'Os Lusíadas, de Luís Camões, para uma baixela de porcelana.

JUNÇÃO DE SONS E CORES

Mito junta sons cores, luz e sombra para criar uma dança de beleza inesgotável em Timenti Lua Ka Subi.

A afirmação é de Filinto Elísio, apresentador de mais esta exposição de Mito, para quem, os quadros que cantam e contam a Noiva Branca, não passam de janelas de um grande interior. "Devíamos, por esta magia, agradecer ao artista com uma salva de palmas", propôs o apresentante à plateia, no que foi pronta e eufóricamente correspondido.

De acordo com Filinto Elísio, cada quadro de Mito é uma colocação com certa intimidade, um desnudar-se, uma entrega. "É complicado fazer uma análise e uma classificação das telas de Mito, exactamente porque ele não consegue nenhum comportamento organizado e enquadrado em determinadas correntes", reconhece.

Alexandre Semedo

Horizonte Nº 329 - 6ª Feira, 12 de Novembro de 2004. Pág.10