A fotografia parte do visível e a sua analogia histórica com a pintura reside
no facto de apresentar-se, também ela, enquanto janela aberta para o mundo.
Mas ela age de modo directo e distinto sobre a materialidade do objecto, indiciando-o:
impondo-se ao visual existente como testemunho do instante de corte e suspensão
temporal. Sobre essa realidade que original-mente não cria ela age recortando
para devolver-nos vestígios de presenças que diante de nós se reapresentam
como novas instâncias de um outro rosto do real.
As fotografias de Mito recuperam os pressupostos ontológicos da criação pictórica enquanto invenção sígnica. Retomam a história da invenção da imagem, portanto. Mas, ao orientar a sua objectiva para o processo de constituição de uma realidade outra, o autor assume ainda um movimento complementar de reapropriação dos códigos da pintura - ela sim, tradicionalmente conotada com o exercício de simulação do real.
Neste sentido, os seus trabalhos fotográficos colocam-nos perante o desafio de um alargamento deste gesto de recorte reinscritivo, ao fazê-lo remontar à sua própria raíz e devolvem-lhe a possibilidade de produzir iconografando - inscrevendo ou impressionando a película de um pretérito-presente revelado sob o efeito da luz.
No início, olhamos imagens de sobrevalorização matérica, onde reconhecíveis formas de natureza se transfiguram e potenciam plasticamente, desnaturalizando a paisagem. Objecto, corpo ou mar, os elementos regressam assim resgatados ao seu próprio quadro de existência espacio-temporal, confrontando-nos como exercícios do real fotográfico nascido de um olhar outro - cultural e objectivamente agindo sobre uma aparente anterioridade natural. O trabalho de desocultação plástica de Mito assume uma nova direcção: depois da gestação da tela, ele reconstitui o visível sensibilizando a película e revelando, sob o efeito da luz, o pretérito presente inscrito na imagem enquanto corpo agente do real.
Num segundo momento Mito radicaliza ainda esta averiguação
outra do reconhecível, invertendo e deslocando referentes
culturais: ironiza multiplicando metáforas, rasgando o texto daquilo que
objectiva ou subjectivamente exista. Ele surrealiza,
porque sublinha interiores conotações ou insondáveis geometrias, antes
invisíveis sem o recurso à supravisão da lente que utopicamente amplia e nos
sobredota perceptivamente. Mas, por desdobramento, ele fotografa sobre-realizando porque intensifica ideologi-camente cada
marca cultura subjacente à matéria vista. Surpreendendo corpos de sombra ou
súbitas aparições de luz, Mito fotografa de modo relacional - dá-nos uma nova
intuição e credibilidade das coisas - porque relativiza a nossa experiência de
vida. Dota o observador de uma visão superlativa que
nos aproxima e conscencializa de texturas térreas ou súbitas aparições da luz.
Sobre a paisagem, a inscrição do humano faz-se por apelo a novos desenhos de
sombra e luz. E é desde o interior das suas fotografias que cada rosto se
ultrapassa religando o nosso olhar de observadores à memória da terra e
dizendo-nos sermos, nós mesmos, o seu horizonte olhado. Retomando o espanto de
um primeiro saber do mundo que não deverá bastar-se à inocência, Mito reinventa
o desafio à perda de rotina do olhar: ele mesmo enquanto negativo do modo
tradicional de perceber o mundo e observar.
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