Mutatuna

Exposição realizada na Galeria Municipal Gymnásio em Lisboa, entre Fevereiro e Março de 1995. Dueto foi um casamento entre as aguadas do artista Mito e as esculturas do Gonçalo Condeixa. Foi a primeira amostra de aguadas do artista.

IMAGEM DA BROCHURA : Mutatuna. Técnica mista sobre papel. 70x100 cm. 1993. - Colecção J. Cunha - Lisboa - Portugal.

Espuma de terra

Espuma de terra. Técnica mista sobre papel.
100x70 cm. 1993. - Colecção particular.
Lecce - Itália.

Ilha submersa de ninguém

Ilha submersa de ninguém. Técnica mista
sobre papel. 70x100 cm. 1993. -
Colecção
Amélia Andrade. - Venda Nova - Amadora.

Agradecimentos : José Narciso, José Cunha,
Câmara Municipal de Lisboa.

"um passo rumo ao silêncio"

No princípio era o deserto;
e no deserto erguia-se
como uma ferida, uma torre,
num tronco de rubras águas
com uma floresta de densos verdes
no topo.

Depois ..,
há um braço erguido que se ergue
e se liberta do corpo feliz das dunas,
e me toca na nuca como um relâmpago;
desperto lentamente o olhar para olhar
e celebro o dia;
ávidas as minhas mãos buscam, bruscas,
o vinho quente que as tuas mãos derramam;
desvendo no sangue novo das cores
o que o engano das sombras oculta;
o verde labiríntico do terreiro
onde um homem nú dança
o batuque inaugural;
o fogo do poente
que o canto místico das aves esconde;
o júbilo e o êxtase
no mar sem Fundo de Bulimundo
em estática metamorfose ...

Exaustos os dedos deslizam
para o torbulento delta de lama e fogo
onde as águas desaguam o seu cansaço

cada passo é uma lenta aproximação às palavras,
rarefeitas de sonhos e miragens,
e em cada palavra que os meus lábios
saciados tocam, avanço ébrio
mais um passo rumo ao silêncio
colorido do teu mundo.


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Cada quadro oferece-se como um poema que se contrói sob a escrita dos nossos próprios olhos. Um diálogo contra a rasura do tempo, ferida elemental que os dedos do pintor ilumina.


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Por vezes buscamos nestes quadros algo que nos complete, outras, um lugar onde nos perdermos. Em ambas as hipóteses, sempre a mesma sede, a primeira sede de diálogo.


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É de um acto mágico que esta escrita nasce e se perpetua. De um acto de amor, entre gesto e cor, para que a dor do traço construa no espaço o corpo da sua própria transparência, como se uma voz antiga, mil vezes rasurada se erguesse em cada quadro como um segredo primordial, sinfonia de silêncio e caos.

 

Alexandre Cunha

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