
Sambuna pa nha Codé. Técnica mista sobre tela. 70x100 cm. 2004. Colecção Biblioteca Nacional. Praia - Cabo Verde.

Sicré bu xinta na pilon. Técnica mista sobre tela. 70x100 cm. 2004.
"Nu ai ta bai Graciosa riba la
pisca spritu di noiva branca."
O imaginário do Homem sempre se viu habitado pela poética das ilhas como luminárias de diferentes expressões de identidade. Entendida como arquipélago de vivências, a pintura de Mito sempre se fez habitar pelo idioma crioulo, ele próprio arquivo plural de cultura e memória.
As suas imagens recentes resultam desse mesmo processo de arquivar manipulando figuras, textos ou grafias, que surgem inicialmente como simples elementos fragmentários de um universo pessoal desterritorializado. Recuperando velhos pedaços de jornal impresso, citando expressões quotidianas do crioulo, sobrepondo ou deslocando sígnos e figuras, o autor trabalha cada tela como lugar de inscrição e reapropriação de memórias. Na sua obra, é sobre essa superfície receptiva que a pintura nasce, feita exercício de colagem e reordenação. Instância de metáfora e manualidade.
Por vezes a estória encenada coreografada - surge exactamente como montagem visual e discursiva: surpreendemos objectos e personagens actuantes ou dotados de expressão caligráfica.
Tal como acontece relativamente ao recurso à escrita e ao processo de assemblage, também a utilização do desenho e a composição da côr são aqui exercícios de manualidade. Água e pigmento interagem num processo de adensamento ou dissolução de contornos e superficies, que desde anteriores trabalhos vêm temperando as telas de um mare calamus que nos fala da pintura como poética da insularidade, migração ou desdobramento.
Essencial ao processo de manipulação dos fragmentos em colagem
e ao uso da têmpera como modo de dinamização de cores
e texturas, a acção da luz contribui igualmente para que o efeito
da representação na imagem pintada se aproxime metaforicamente
ao produto da revelação sobre película.
É essa celebração da luz e da sua acção
alquímica sobre a percepção transformadora do real que
esta exposição procura configurar. Adoptando como ponto de partida
o fragmento de uma narrativa tradicional transmitida oralmente ao autor nas
proximidades do Monte Graciosa, a memória dessa visão da natureza
luminescente é aqui equiparada ao nascimento da pintura. É esse
legado cultural mítico que se retoma e ritualiza em cada quadro. Timenti
lua ka subi fala-nos, assim, da sombra da lua como palco de representação
da imaterialidade.
- continua
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