
Nú priti di costa largo. Grafite e gordura sobre papel cenário. 70x90 cm. 1991. Colecção particular. Lisboa - Portugal.
Uma teoria do quadro
Escreve a mão a primeira estrela,
súbito um vagaroso rebanho irrompe
pela tela laureando num murmúrio de preces
irreptíveis um deus sem número
invocado nas rasgadas tardes de intempéries.
O suão passou sobre o distante eremitério,
- solitário veleiro ancorado entre mar
e serras
donde se ergue o penitente clamor do eremita,
senha obscura para reino algum -
mas nada contou do céu que se fecha
sobre a pálida natureza
apagando até ao último eco
esse verde que alumiava
as morosas tardes de maio.
A noite surpreendeu essa mão funesta
e febril sobre o espesso amarelo
que seguindo o voo das aves costeiras
desembarcara na amplidão de um venturoso
outono.
Chama-me esse morto repousando
à sombra do velho campanário,
esse velador de glórias de um só dia,
chama-o para essa humanidade viva
dependurada tela de um cavalete esconso
onde essa mão tumultuada e febril
prendeu sob fulgores de neblina e suão
o demorado lume, imitante sopro da vida.
José Luís Tavares
- continua
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