
Mingus. Tinta da china sobre papel. 42x59 cm. 1994. Colecção Fernando Moeda.Praia - Cabo Verde.
"Nos olhos o peso da mão fluente"
Num estilo sintético e abreviativo, estes desenhos possuem uma energia própria que os distingue, com o mesmo rigor de uma rúbrica. A teia do traço vai criando a fisionomia do seu percurso sobre a tábua rasa da folha, como se construísse rotas de um secreto trajecto. Para além do que de forma mais clara e evidente trazem à superfície da sua condição gráfica, para além mesmo dos temas mais obsessivos de Mito, estes desenhos aspiram a uma verdade íntima. Há algo que este universo nos franqueia e nos interdita, como tudo o que é belo. Sentimo-nos tentados perante o desafio de cada um deles a adivinhar o itinerário do(s) gesto(s) onde as formas se construíram, e a sentir nos olhos o peso da mão fluente donde desaguaram. Oscilando entre a simplicidade nua e elegante da linha, e a fantasia geométrica mais exuberante, umas vezes é ao lado mais despojado do desenho que o autor apela, à nudez do traço, à nitidez estrutural e rupestre das figuras, outras é ao excesso de construção, de embriaguez das linhas, numa teia hipnótica, quase ritualística, "tal como ao mestre a folha mais à mão arranca às vezes o traço mais preciso" (Rilke).
Alexandre Cunha
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