
O vagar dos dias sem madrugada. Técnica mista sobre tela. 100x80 cm. 1994.

Mitomorfose de vênus. Técnica mista sobre pano crú. 67x95 cm. 1994. Colecção Amélia Andrade. Venda Nova - Amadora - Portugal.
Óleos
"Encenação de um destino"
A ausência de trabalhos mais antigos penaliza de alguma forma este conjunto,
por não nos permitir uma visão retrospectiva destes doze anos de um percurso
fértil e rico. Com estes trabalhos, Mito ensaia um
desvio evidente no
itinerário que algumas obras anteriores apontavam. Num primeiro momento
observamos uma tendência pontuada pelo uso de cores vivas e agressivas, para a
procura deliberada de contrastes fortes,
em que o peso emotivo do pincel
produzia formas ousadas e vigorosas, e ainda a opção por um figurativismo de
contornos mais abstractos. Na fase actual, para além de um amadurecimento
evidente no domínio da linguagem e dos instrumentos de que se socorre, temos um
artista mais contido e sóbrio, em que as cores se suavizam, o gesto se toma mais
firme, as formas mais seguras, o pincel mais lento e discursivo e
os
contornos mais sublinhados. Outro aspecto desta nova fase, é a forma como Mito
constrói muitas das suas imagens, fazendo apelo evidente ao rigor gráfico dos
seus desenhos. Interessante é verificar-se como esta convocação afecta e
transforma esses desenhos sem trair a sua raiz matricial, dando-lhes vida
própria e
permitindo-lhes afirmar a sua autonomia estruturante no espaço da
obra. Outro aspecto igualmente marcante, é a constatação de uma necessidade
maior em comunicar, em tornar mais lisível cada objecto, sem nunca ceder à
tentação ilustrativa, e apelando muitas vezes ao seu agudo sentido de humor, que
alguns dos
títulos destas obras são reflexo.
Estão aqui presentes alguns
dos aspectos mais recorrentes do imaginário do artista e do seu universo
representacional: poesia, erotismo, solidão, melancolia, mas também alegria,
mesmo que ténuamente representada por um par de dançarinos, como se o autor, na
diversidade de cada pintura, estivesse construindo o mapa espiritual da nossa
existência, ou promovendo a encenação de um destino familiar: o nosso.
Alexandre Cunha
![]() |
![]() |
|||||||||||||||
![]() |
![]() | |||||||||||||||
![]() | ||||||||||||||||