"Mas para nós existir tem ainda encanto; ainda em cem lugares é origem. Jogo de forças puras e latentes, não as toca quem não admira e de joelhos não se inclina. "

R. M. Rilke


No actual panorama da produção cultural caboverdiana as artes plásticas vêm assumindo um peso e uma importância crescentes, recuperando de um "atraso" e de um apagamento consideráveis em relação a outras formas de expressão artística e cultural. O número crescente de autores e eventos vem confirmar esta tendência.

Assistimos nestes últimos vinte anos ao nascimento e afirmação de uma geração de pintores, heterogénea na idade, na formação e nos estilos, mas geradora de um movimento amplo de interesse pelas artes plásticas, que consideramos hoje irreversível. Esta geração personaliza o primeiro grande período da nossa jovem pintura, e, como diria Jacques Rivière, ainda "não sabe se está a criar um mundo ou a receber a sua revelação ", dúvida inerente a todos aqueles que se propõem abrir caminhos, sujeitos ao nebuloso e inevitável universo de apropriações, colagens, influências, transferências, ou, como pensarão alguns, na recusa ilusória dessa permeabilidade.

Mito é um dos autores desta geração que mais radicalmente corta com este princípio de exclusão e este mecanismo de recusa, tão frequente nas culturas periféricas, e os esquemas expressivos que lhes estão associados, nomeadamente padrões de composição, normas representativas ou temas de recorrência "obrigatória" ou tidos como convenientes. Entender esta postura é fundamental para qualquer tentativa de abordagem à obra deste pintor, que assume, sem complexo ou submissão, o diálogo com toda a arte moderna e contemporânea, nomeadamente a Ocidental, apostando nas virtudes da interacção recíproca das linguagens contra tendências de cariz regionalizante a que vêm associados, bastas vezes, as inevitáveis pechas do "folclórico1' e do "exótico", e que alguns ainda teimam em confundir com originalidade e autenticidade.

Num percurso que remonta a 1983, Mito propõe-se apresentar um conjunto de obras que, não constituindo em rigor uma retrospectiva destes doze anos, nos dá a ver o que de mais relevante vem produzindo e exposto nos últimos cinco anos. Escolheu a cidade que o viu nascer como homem e artista para realizar a sua primeira grande exposição individual, tendo optado por um conjunto de trabalhos divididos por três núcleos principais, óleos, aguadas e desenhos, a que junta, por motivos de ordem pessoal e certamente emocional, alguns estudos do corpo humano da fase académica da ARCO.

Para aqueles que irão deslizar o seu olhar por estes trabalhos, lembramos que cada um deles é um labirinto que nos propomos atravessar, onde por vezes nos sentiremos perdidos e outras certamente maravilhados. A única certeza com que partimos para esta viagem é a de que a verdade ou a ilusão última de cada obra reside em nós, e é inverificável. Que cada um destes trabalhos dialoga exclusivamente com o olhar de quem os toca. Que no jogo dos sentidos toda a intermediação é suspeita, todo o olhar provisório e toda a razão oscilante. Cabe a cada um procurar em si-próprio o fio de Ariana que o faça encontrar a(s) saída(s) deste labirinto, sempre, de cada vez, em cada obra, a sua própria verdade.


Alexandre Cunha


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