
Mitomorfoses - 1ª exposição individual
em Cabo Verde, após 6 anos residindo em Portugal. Uma espécíe de retrospectiva
da vivência na diáspora, englobando 3 fases : óleos, aguadas e desenhos. A
exposição teve lugar na cidade da Praia, no actual Palácio da Cultura e no
Mindelo no Palácio do Povo, entre Abril e Maio de 1995.

Tapoé. Óleo e acrílico sobre tela.
60x67 cm. 1994. Colecção Markus Repnik. Viena - Áustria.
Agradecimentos : INAC, TACV, José Cunha, José Luís Tavares, Amélia Andrade.
No actual panorama da produção cultural caboverdiana as artes
plásticas vêm assumindo um peso e uma importância crescentes,
recuperando de um "atraso" e de um apagamento consideráveis
em relação a outras formas de expressão artística
e cultural. O número crescente de autores e eventos vem confirmar esta
tendência.
Assistimos nestes últimos vinte anos ao nascimento e afirmação
de uma geração de pintores, heterogénea na idade, na
formação e nos estilos, mas geradora de um movimento amplo de
interesse pelas artes plásticas, que consideramos hoje irreversível.
Esta geração personaliza o primeiro grande período da
nossa jovem pintura, e, como diria Jacques Rivière, ainda "não
sabe se está a criar um mundo ou a receber a sua revelação
", dúvida inerente a todos aqueles que se propõem abrir
caminhos, sujeitos ao nebuloso e inevitável universo de apropriações,
colagens, influências, transferências, ou, como pensarão
alguns, na recusa ilusória dessa permeabilidade.
Mito é um dos autores desta geração que mais radicalmente
corta com este princípio de exclusão e este mecanismo de recusa,
tão frequente nas culturas periféricas, e os esquemas expressivos
que lhes estão associados, nomeadamente padrões de composição,
normas representativas ou temas de recorrência "obrigatória"
ou tidos como convenientes. Entender esta postura é fundamental para
qualquer tentativa de abordagem à obra deste pintor, que assume, sem
complexo ou submissão, o diálogo com toda a arte moderna e contemporânea,
nomeadamente a Ocidental, apostando nas virtudes da interacção
recíproca das linguagens contra tendências de cariz regionalizante
a que vêm associados, bastas vezes, as inevitáveis pechas do
"folclórico1' e do "exótico", e que alguns ainda
teimam em confundir com originalidade e autenticidade.
Num percurso que remonta a 1983, Mito propõe-se apresentar um conjunto
de obras que, não constituindo em rigor uma retrospectiva destes doze
anos, nos dá a ver o que de mais relevante vem produzindo e exposto
nos últimos cinco anos. Escolheu a cidade que o viu nascer como homem
e artista para realizar a sua primeira grande exposição individual,
tendo optado por um conjunto de trabalhos divididos por três núcleos
principais, óleos, aguadas e desenhos, a que junta, por motivos de
ordem pessoal e certamente emocional, alguns estudos do corpo humano da fase
académica da ARCO.
Para aqueles que irão deslizar o seu olhar por estes trabalhos, lembramos
que cada um deles é um labirinto que nos propomos atravessar, onde
por vezes nos sentiremos perdidos e outras certamente maravilhados. A única
certeza com que partimos para esta viagem é a de que a verdade ou a
ilusão última de cada obra reside em nós, e é
inverificável. Que cada um destes trabalhos dialoga exclusivamente
com o olhar de quem os toca. Que no jogo dos sentidos toda a intermediação
é suspeita, todo o olhar provisório e toda a razão oscilante.
Cabe a cada um procurar em si-próprio o fio de Ariana que o faça
encontrar a(s) saída(s) deste labirinto, sempre, de cada vez, em cada
obra, a sua própria verdade.
Alexandre Cunha
continua +
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