
Ta sumara um aiam. Técnica mista sobre tela. 81x110 cm. 2005. Colecção Arnaldo Silva. Praia - Cabo Verde.

Mambá. Técnica mista sobre tela. 70x100 cm. 2004. Colecção Carlos Resende. Praia - Cabo Verde.

Sampadiu. Técnica mista sobre tela. 70x100 cm. 2005.

Di gangaiam. Técnica mista sobre tela. 70x100 cm. 2004.

Melisma. Técnica mista sobre tela. 60x73 cm. 2005. Colecção Presidência da República. Praia - Cabo Verde.
A arte de Mito é herdeira de uma contemporaneidade em crise. Crise
que se acolhe, desde meados dos anos sessenta do Sec. XX, ao abrigo de uma
condição pós-moderna, caracterizada pelo esgotamento
e a falência de paradigmas que se vão sucedendo numa vorácia
antropofágica, sem que nenhuma corrente, estilo ou linguagem se afirme
com capacidade unificadora ou força dominante. É a própria
ideia de paradigma que soçobrou face ao império do efémero.
A obra de Mito, pela sua intensidade e riqueza, pelo percurso singular que
vem trilhando, sempre exigente e ousado, mais do que fazer dele um artista
original, vem confirmá-lo como uma das mais importantes da arte caboverdeana.
Desde essa irreverente lufada de ar fresco, talvez demasiado fresco para aqueles
tempos, que foi a experiência de 'Sopinha', o seu percurso plástico
tem-se feito de uma excepcional inquietude por outros campos artísticos,
numa deriva plástica coerente e persistente, que o tem levado do e-@rt
à música, da poesia ao vídeo, da ilustração
ao cartoon. Este trajecto, diverso e plural, só tem sido possível
porque sustentado pela força de uma febril irrequietude, de uma curiosidade
intelectual inesgotável, de um cosmopolitismo radical, mas também
pela sede de informação, pela abertura que sempre revelou às
mais diversas experiências e transformações da arte e
do seu tempo. O resultado de um tal esforço e determinação,
foi ele ter-se tornado no artista ecléctico e polifacetado que conhecemos.
Por isso, pretendermos explicar, avaliar ou resumir a sua obra é um
desafio tão impossível quanto inútil, mas talvez, por
isso mesmo, necessário, certos de que das muitas leituras possíveis
nenhuma se imporá como única ou a verdadeira, porque todas elas
não passariam de provisórios exercícios de aproximação(ões)
e mediação(ões).
Esta é uma obra da memória, povoada de lugares, de pessoas
e de afectos. Por isso mesmo de personagens, ainda que figuras irreconhecíveis,
espectrais e híbridas; de seres (humanos, animais e antropomórficos)
que se misturam, fundem e confundem, numa metamorfose permanente; de experiências
e vivências, mas sem concessões líricas fáceis
ou serôdias nostalgias; de sonhos também, mesmo quando levados
a extremos delirantes de representação e figuração.
Sabemos que dar a ver não é só mostrar, é também
sugerir, dissimular, ocultar. Este parece ser o ideário estético
desta fase declaradamente expressionista do criador de "Mare Calamus".
Mas não nos fixemos em rótulos, porque estes são sempre
lugares cómodos onde apenas vemos o que a nossa miopia deixa. Mito
aportou finalmente ao registo que a sua longa deambulação experimentalista
há muito anunciava. E hoje, quando tudo nos parece claro e óbvio,
deparamo-nos com a presença de uma imagem sólida, de uma marca
reconhecível e identificável à distância, marca
inconfundível a que chamamos de 'marca mito'. Podemos inequivocamente
falar de uma mitoimagem. Correlato daquela e sua subsidiária
temos uma linguagem plástica pessoalíssima a que chamei Mitografias.
Na obra de Mito as 'aguadas' são claramente um ponto de chegada, pela
circularidade técnica e temática, pela sua dimensão e
duração, pela exaustividade. O traço e a mancha há
muito se libertaram do 'espartilho canónico' da linha e da forma precisas,
já não coincidem com a superfície harmoniosa do desenho,
ganharam em liberdade expressiva o que antes se jogava no apertado rigor da
forma e da cor. O namoro com a ilustração está sempre
presente, e é sobre essa presença explicita ou invocada que
o gesto narrativo do autor assenta. Ao anterior rigor do traço contrapõe-se
agora a sua libertação, pela irregularidade 'infantil', quase
rasura, pela espontaneidade gestual, quase primária, no uso restritivo
da paleta onde as cores se rarefizeram, pobres, secas, esmaecidas, brandas,
quase sombrias. Uma única excepção, brilhante, luminosa,
mítica, que é esse imenso e profundo azul-mito. Outra marca
inconfundível. Nada disto é por acaso, mesmo que tenha sido
por um 'líquido acaso' que o pintor tenha 'achado' esta técnica,
que a tenha adoptado, explorado, e, neste momento, perpetuado.
Da sua gramática estética destacamos alguns aspectos da sintaxe
sígnica que consideramos relevantes. Figuras/personagens que se dão
a ver, mas também se escondem por detrás do traço ou
da mancha, por sobreposição ou sobreexposição;
textos que se colam ou se inscrevem mas que não se deixam ler, ou apenas
deixam mas parcial e fragmentariamente como recados/mensagens truncadas; títulos
referenciadores de lugares, situações, personagens, ou simplesmente
parte integrantes da obra, mas sem a preocupação de esclarecer,
identificar ou explicar, tudo num jogo de non-sense's sempre nos limites do
delírio onírico, do excesso afectivo, da ironia mordaz, da sugestão
forte, da estranheza metafórica, que remetem para uma ideia espacio-temporal
de (aparente) desterritorialidade (Mafalda Serrano dixit). Na verdade
todos estes enunciados, figuras, personagens, textos títulos, não
deixam de apontar para um tempo e um mundo reconhecíveis e pessoal.
A caboverdeanidade referencial destes trabalhos sempre esteve para lá
de uma qualquer visão atrofiada e esteriotipada, afirmando-se em contraponto
catártico à pequenez claustrofóbica do nosso pequeno
mundo.
Todos estes quadros possuem um cordão umbilical comum, uma cumplicidade
evidente, unidos no metatexto de uma história inacabada, e sempre recomeçada.
Os mesmo temas e as suas infinitas variações. Uma saga portanto,
que em cada exposição, momento defectivo por excelência,
se renova numa dialéctica do contar em que cada obra, cada nova exibição
constitui um capítulo que, sintetizando os anteriores, e afirmando-se
no presente como unidade autónoma, anuncia já e de cada vez
a sua negação futura. O que "DIA SANTO NA LÉM DI
MULATO" nos traz, é a continuação dessa história,
não um mero remake nihil nil novi, mas saga vinda de longe e
não se sabendo indo para que futuro. Sabemos, melhor pressentimos,
que elas não acabam aqui, que continuarão em "próximos
episódios", perdão, exposições. Estamos pois
perante uma narrativa, povoada por anti-heróis, uma anti-épica
onde aquilo que inicialmente nos pareceu poética (e porventura à
data seriam), hoje é certamente uma never endding story onde
nos perdemos e regressamos, numa circularidade labiríntica. É
aqui que entra essa invenção feliz da Amélia, a mitofigura
do griot, que Mito adoptou e encarna. O que é afinal o griot
senão o contador de estórias/histórias por excelência,
o mensageiro, o sage, aquele que, vindo dos confins dos tempos, nos traz as
sementes das novidades antigas, aquele que, ao transmiti-las, fabrica-as,
falsificando, refazendo, inventando, alterando, adulterando, acrescentando.
É desta herança rediviva, é da nossa desmemória
resgatada o que aqui se trata. Importa também, e ainda, realçar
a figura/sombra do cartonista. Cada tela pode, e deve, ser vista como uma
prancha de uma imensa BD, em que, mesmo que cada uma constitua formalmente
uma unidade, em nada perturba a visão de conjunto, sempre aleatória,
sempre manipulada, dos imensos possíveis que nos são dado ver,
e ler, em cada nova exposição. Previsibilidade? Sim! Mas não
a que decorre de uma transitoriedade delirantemente experimentalista, mas
aquela outra que confirma uma linha expressiva ainda longe de se esgotar.
Estamos já perante o autor maduro, seguro e lúcido, mas dessa
forma de lucidez que não dispensa o condimento de uma pitada de loucura.
A previsibilidade, neste caso, não é um risco, mas a confirmação
de um percurso e a garantia de uma obra, que instala em nós a estranheza
expectante de não sabermos até onde vai esta delirante imagerie
que Mito faz desfilar perante os nossos olhos. Mito é um apaixonado
pelo desenho e pela crónica do quotidiano. O seu imaginário
está povoado por ecos antigos, herança profunda de uma tradição
de oralidade ameaçada, forma superior de contar, de dizer, de nomear.
Como diz Mafalda Serrano, numa pincelada lúcida e feliz que aqui procuro
reproduzir, o renascer desse legado mítico, ritualizado em cada quadro,
equivale já ao próprio nascimento da pintura.
Fiat Lux.
José Cunha
- continua
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