MITOgrafias

A arte de Mito é herdeira de uma contemporaneidade em crise. Crise que se acolhe, desde meados dos anos sessenta do Sec. XX, ao abrigo de uma condição pós-moderna, caracterizada pelo esgotamento e a falência de paradigmas que se vão sucedendo numa vorácia antropofágica, sem que nenhuma corrente, estilo ou linguagem se afirme com capacidade unificadora ou força dominante. É a própria ideia de paradigma que soçobrou face ao império do efémero.

A obra de Mito, pela sua intensidade e riqueza, pelo percurso singular que vem trilhando, sempre exigente e ousado, mais do que fazer dele um artista original, vem confirmá-lo como uma das mais importantes da arte caboverdeana. Desde essa irreverente lufada de ar fresco, talvez demasiado fresco para aqueles tempos, que foi a experiência de 'Sopinha', o seu percurso plástico tem-se feito de uma excepcional inquietude por outros campos artísticos, numa deriva plástica coerente e persistente, que o tem levado do e-@rt à música, da poesia ao vídeo, da ilustração ao cartoon. Este trajecto, diverso e plural, só tem sido possível porque sustentado pela força de uma febril irrequietude, de uma curiosidade intelectual inesgotável, de um cosmopolitismo radical, mas também pela sede de informação, pela abertura que sempre revelou às mais diversas experiências e transformações da arte e do seu tempo. O resultado de um tal esforço e determinação, foi ele ter-se tornado no artista ecléctico e polifacetado que conhecemos. Por isso, pretendermos explicar, avaliar ou resumir a sua obra é um desafio tão impossível quanto inútil, mas talvez, por isso mesmo, necessário, certos de que das muitas leituras possíveis nenhuma se imporá como única ou a verdadeira, porque todas elas não passariam de provisórios exercícios de aproximação(ões) e mediação(ões).

Esta é uma obra da memória, povoada de lugares, de pessoas e de afectos. Por isso mesmo de personagens, ainda que figuras irreconhecíveis, espectrais e híbridas; de seres (humanos, animais e antropomórficos) que se misturam, fundem e confundem, numa metamorfose permanente; de experiências e vivências, mas sem concessões líricas fáceis ou serôdias nostalgias; de sonhos também, mesmo quando levados a extremos delirantes de representação e figuração. Sabemos que dar a ver não é só mostrar, é também sugerir, dissimular, ocultar. Este parece ser o ideário estético desta fase declaradamente expressionista do criador de "Mare Calamus". Mas não nos fixemos em rótulos, porque estes são sempre lugares cómodos onde apenas vemos o que a nossa miopia deixa. Mito aportou finalmente ao registo que a sua longa deambulação experimentalista há muito anunciava. E hoje, quando tudo nos parece claro e óbvio, deparamo-nos com a presença de uma imagem sólida, de uma marca reconhecível e identificável à distância, marca inconfundível a que chamamos de 'marca mito'. Podemos inequivocamente falar de uma mitoimagem. Correlato daquela e sua subsidiária temos uma linguagem plástica pessoalíssima a que chamei Mitografias.

Na obra de Mito as 'aguadas' são claramente um ponto de chegada, pela circularidade técnica e temática, pela sua dimensão e duração, pela exaustividade. O traço e a mancha há muito se libertaram do 'espartilho canónico' da linha e da forma precisas, já não coincidem com a superfície harmoniosa do desenho, ganharam em liberdade expressiva o que antes se jogava no apertado rigor da forma e da cor. O namoro com a ilustração está sempre presente, e é sobre essa presença explicita ou invocada que o gesto narrativo do autor assenta. Ao anterior rigor do traço contrapõe-se agora a sua libertação, pela irregularidade 'infantil', quase rasura, pela espontaneidade gestual, quase primária, no uso restritivo da paleta onde as cores se rarefizeram, pobres, secas, esmaecidas, brandas, quase sombrias. Uma única excepção, brilhante, luminosa, mítica, que é esse imenso e profundo azul-mito. Outra marca inconfundível. Nada disto é por acaso, mesmo que tenha sido por um 'líquido acaso' que o pintor tenha 'achado' esta técnica, que a tenha adoptado, explorado, e, neste momento, perpetuado.

Da sua gramática estética destacamos alguns aspectos da sintaxe sígnica que consideramos relevantes. Figuras/personagens que se dão a ver, mas também se escondem por detrás do traço ou da mancha, por sobreposição ou sobreexposição; textos que se colam ou se inscrevem mas que não se deixam ler, ou apenas deixam mas parcial e fragmentariamente como recados/mensagens truncadas; títulos referenciadores de lugares, situações, personagens, ou simplesmente parte integrantes da obra, mas sem a preocupação de esclarecer, identificar ou explicar, tudo num jogo de non-sense's sempre nos limites do delírio onírico, do excesso afectivo, da ironia mordaz, da sugestão forte, da estranheza metafórica, que remetem para uma ideia espacio-temporal de (aparente) desterritorialidade (Mafalda Serrano dixit). Na verdade todos estes enunciados, figuras, personagens, textos títulos, não deixam de apontar para um tempo e um mundo reconhecíveis e pessoal. A caboverdeanidade referencial destes trabalhos sempre esteve para lá de uma qualquer visão atrofiada e esteriotipada, afirmando-se em contraponto catártico à pequenez claustrofóbica do nosso pequeno mundo.

Todos estes quadros possuem um cordão umbilical comum, uma cumplicidade evidente, unidos no metatexto de uma história inacabada, e sempre recomeçada. Os mesmo temas e as suas infinitas variações. Uma saga portanto, que em cada exposição, momento defectivo por excelência, se renova numa dialéctica do contar em que cada obra, cada nova exibição constitui um capítulo que, sintetizando os anteriores, e afirmando-se no presente como unidade autónoma, anuncia já e de cada vez a sua negação futura. O que "DIA SANTO NA LÉM DI MULATO" nos traz, é a continuação dessa história, não um mero remake nihil nil novi, mas saga vinda de longe e não se sabendo indo para que futuro. Sabemos, melhor pressentimos, que elas não acabam aqui, que continuarão em "próximos episódios", perdão, exposições. Estamos pois perante uma narrativa, povoada por anti-heróis, uma anti-épica onde aquilo que inicialmente nos pareceu poética (e porventura à data seriam), hoje é certamente uma never endding story onde nos perdemos e regressamos, numa circularidade labiríntica. É aqui que entra essa invenção feliz da Amélia, a mitofigura do griot, que Mito adoptou e encarna. O que é afinal o griot senão o contador de estórias/histórias por excelência, o mensageiro, o sage, aquele que, vindo dos confins dos tempos, nos traz as sementes das novidades antigas, aquele que, ao transmiti-las, fabrica-as, falsificando, refazendo, inventando, alterando, adulterando, acrescentando. É desta herança rediviva, é da nossa desmemória resgatada o que aqui se trata. Importa também, e ainda, realçar a figura/sombra do cartonista. Cada tela pode, e deve, ser vista como uma prancha de uma imensa BD, em que, mesmo que cada uma constitua formalmente uma unidade, em nada perturba a visão de conjunto, sempre aleatória, sempre manipulada, dos imensos possíveis que nos são dado ver, e ler, em cada nova exposição. Previsibilidade? Sim! Mas não a que decorre de uma transitoriedade delirantemente experimentalista, mas aquela outra que confirma uma linha expressiva ainda longe de se esgotar.

Estamos já perante o autor maduro, seguro e lúcido, mas dessa forma de lucidez que não dispensa o condimento de uma pitada de loucura. A previsibilidade, neste caso, não é um risco, mas a confirmação de um percurso e a garantia de uma obra, que instala em nós a estranheza expectante de não sabermos até onde vai esta delirante imagerie que Mito faz desfilar perante os nossos olhos. Mito é um apaixonado pelo desenho e pela crónica do quotidiano. O seu imaginário está povoado por ecos antigos, herança profunda de uma tradição de oralidade ameaçada, forma superior de contar, de dizer, de nomear. Como diz Mafalda Serrano, numa pincelada lúcida e feliz que aqui procuro reproduzir, o renascer desse legado mítico, ritualizado em cada quadro, equivale já ao próprio nascimento da pintura.
Fiat Lux.

José Cunha


 

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