
Nubris ta lora dibagar. Técnica mista sobre vinil.
100x70 cm. 1997. Colecção J. Cunha. Lisboa - Portugal.
Azul
Deixo-me estar,
no limiar desta preguiça vegetal,
entre o gosto vagaroso do ócio
e o olhar ferido de azul;
o corpo viaja para o seu anoitecer,
e celebrando busca
esse lugar sem nome onde
o sono antigo e os dias dormem.
Deixo-me estar
para que o corpo retome,
em silêncio e devagar,
o seu destino de duna.
Deixo-me estar
até que o corpo em queda
sobre si próprio se dissolva,
errância tranquila de quem
conhece, dos caminhos,
o labirinto das passagens.
Deixo-me estar
até que da viagem
já nada mais reste
do que o peso de um olhar,
talvez o teu, porque eu serei já
azul, azul apenas,
esse que nos teus olhos brilha
com a primeira luz da manhã.
Só se vê uma vez,
não mais,
nunca mais.
Não queiras ver antes de tempo,
antes que a luz dos teus olhos
amadureça com as maçãs.
Sê paciente e espera,
saberás que o verão do mundo,
com os pássaros, chegou ao teu coração,
e os pássaros não mentem às estações.
Olha,
olha sempre com a fome
de quem busca na exaustão dos dias
a salvação dos gestos simples.
Cuida-te do olhar de Orfeu,
porque só se vê uma vez,
e o ver cega.
Um dia descobrirás que viste
quando já só fores luz viajando
num olhar que nunca te viu.
Alex

Count down to Basie´s blues. Técnica mista sobre vinil.
100x70 cm. 1997.
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