Kurasson di sibitchi
coração de azeviche

No Fundo do coração de azeviche segredos negros e uterinos. De o saber, compreendi então porquê tanta gente navega entre as ilhas do nosso quotidiano. Uns no pó dos arquivos, outros nos acasos encontrados nos pincéis, todos, cada um di sê manêra, buscando a divindade guardada no seu baú ancestral. Toda a arte cabo-verdiana vem sendo animada por este desejo obsessivo de desafiar o mistério da nossa identidade, forjada não se sabe nem como, na lonjura dos séculos, em noite de feiticeiras, daquelas que armam calabedadju de gente. Feito kutumbembem, depois de catado, deixamos algo depois dabaixo da terra. Bem mais do que simples passado. O próprio coração; guardado numa conta de azeviche. É o mistério da génesis a razão da própria criação e da cele-bração.

O Mito - esgravatador de cova di kutumbembem - ousa aqui também alcançar o coração de azeviche. Fá-lo com tons e meio tons de azul e castanho, que são as cores da nossa sahelidade insular. Não se vá pensar, porém, que a pintura que aqui se anuncia vive de um realismo identitário. Não. O discurso de identi-dade que nela perpassa é sugestivo, insinuado e múltiplo. Inspirado no coração de azeviche. Talvez tenha chega-do o momento de esclarecer a metáfora :

O coração de azeviche é pois a mãe de todas as sedes e procuras, por isso ra-zão de toda a arte. Deste modo nossa guarda contra o mau olhado do destino vário e inglório dos dias.

 

António Correia e Silva
Lisboa, 30 de Agosto de 1999

 

- continua +

Home Pintura Fotografia E-art Video E-card Sopinha de alfabeto ultimatum Biografia Indice Email Mito