
Tsunami. Técnica mista sobre tela. 81x116 cm. 1998. - Colecção particular - Amadora - Portugal.

The rusty sea celebration. Técnica mista sobre pano crú. 70x100 cm. 1998. - Colecção particular - Luanda - Angola.

Lagoa do teu umbigo. Técnica mista sobre pano crú. 70x100 cm. 1998. Colecção Amélia Andrade. Venda Nova - Amadora - Portugal.
Com Mitomorfoses(1995) Mito desenvolveu uma linguagem pessoal de grande intensidade poética, com apelo a três elementos predominantes, o mar, os peixes e a escrita; com Lágrimas de Indigo(1997) assistimos ao prolongamento das suas investigações plásticas, acentuando-se a sedução pelo universo sígnico da escrita enquanto elemento pictórico de grande plasticidade, e a introdução de um figurativismo assente na simplicidade e despojamento do gesto. É a redescoberta do prazer do traço, a tradução directa da emoção mais pura, como quem busca a própria origem do desenho. Introduz então substis mudanças na sua paleta, rarefeita de azuis, ocres, castanhos e negro, enriquecendo-a com manchas de vermelhos e brancos contrastantes, mas discretas. Torna-se mais complexa e estimulante a relação com a sua obra, ampliando o seu universo referencial e imaginativo, diluindo a obssessão de alguns temas e figuras. O que hoje se pressente nesta última série de trabalhos, não é uma ruptura ou uma qualquer proposta de inovação radical, mas o desenvolvimento natural de algumas linhas de força na continuidade do que vem regularmente experimentando, nomeadamente o figurativo. O sentido mais significativo desta imperceptível deslocação, constitui a lenta passagem de uma dimensão simbólica, mística, subjectiva e poética, da primeira fase, talvez a sua vertente mais rica e sedutora, para uma atmosfera mais narrativa, dramática, profundamente irónica e humorada, centrada na condição humana, nos seus sonhos, nas suas grandezas e fragilidades, como se já não fosse possível manter e sustentar um discurso sério e sisudo sobre a gravidade das coisas. Lantuna na mei di mar e Agualusa & Terracota(1998) evocam e convocam à viagem, e com ela o apelo à descoberta deste Insulano (11ª ilha). Sem perder o mar e a poesia, respondendo às vozes da terra, Mito reintroduz a dimensão telúrica do seu mundo, como contraponto e forma de equilíbrio. É o pintor-poeta a ceder lugar ao pintor-cronista. Qual Ulisses, a memória refaz-se nestas obras pelo olhar exausto de um náufrago sobre as ruínas do esquecimento. Olhar estes trabalhos equivale a um indiscreto espreitar pelas páginas íntimas de um diário que Mito resolve partilhar connosco, como quem abre um mapa de afectos. Eis que se desdobra perante os nossos olhos peregrinos, um mundo povoado de fragmentos de lembranças, da dádiva de pequenos instantes, da grandeza dos pequenos homens, da sua inevitável miséria, da sua risível condição, de restos de gestos essenciais, por vezes de uma subtil perversidade erótica, outras, da simples enumeração de nomes enquanto morada do ser e lugar de reconhecimento. É pois de revisitação, o que aqui se trata, do seu lado surpreendente e perturbador, de um desejo irreprimível de contar, da urgência de um dizer, o que apenas à ordem do coração pertence. É por isso que estas figuras da imaginação, estes personagens desajeitados, se nos impõem e nos desarmam, tornando-nos tão próximos, tão íntimamente familiares, na sua postura, nos seus diálogos, nos seus jogos, na sua inquietação, como se da revisão de uma estória conhecida, de um fabulário fantástico ou de um bestiário doméstico se tratasse. Por isso elas evocam mais do que ilustram, sugerem mais do que representam. Estas cenas possibilitam uma verdadeira arqueologia da memória pelo poder referencial que encerram, transportando-nos para a inelutável verdade do universo ilhéu de onde emergem. E é aqui que a modernidade destes trabalhos, nos surpreende, negando e incomodando a obesa tranquilidade dos espíritos, por estes dias. É por aqui que eles cumprem esse fundamental programa enunciado por Kandinsky, enraizando-se profundamente no seu tempo, neste tempo em acelerada perda de memória. Este é o segredo que estes trabalhos nos revelam, sabermos que nós somos pelo que antes fomos, saber que é pelo lado da memória que nos salvamos, e que a memória pertence ao mundo dos afectos, à respiração harmoniosa do mundo.
Alexandre Cunha
- continua
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