E aqui, neste trabalho que ele nos traz, neste universo do video, que o Mito chama de “virtuália” está a genese de som e imagem, uma dinâmica que sempre conheci no Mito, um acrobata de imagens, um poeta da sonoridade visual. Sim, sonoridade visual.
É nesta dualidade de som e imagem que tenho conhecido parte do trabalho do Mito, onde toda a realidade fixa é mero artefacto de um movimento quase orgânico, corporal, porque é parte integrante do artista que tanto está dentro como fora das imagens que cria, reais ou virtuais. O Mito trabalha a imagem, organize-a para a partilhar com os outros, numa busca e numa (re)construção constante da memória. E com a câmara, tanto se rende a ela,como a usa como parceira, tanto é o olhar da lente como a usa para olhar.... Não usa a mais sofisticada das tecnologias e dos equipamentos – explora ao máximo os recursos a que pode ter acesso e vai compilando histórias. Histórias dos outros, porque o artista procura mostrar-se através dos outros...
Estes videos, ora apresentando outros artistas e sua arte, ora servindo de exercício pedagógico e poético sobre a memória como valor colectivo ou simplesmente fantasiando sobre a animação são quase que uma caixa de Pandora. Abrindo-a, abre-se uma caixa de música onde a imagem é o espelho que reflecte a sonoridade que tudo penetra e tudo embala ... nada pode fugir à evidência insular, ao sopro do mar no olhar e no batuque.... estejamos em Santiago, em Nova York, em Lisboa, Luanda ou principalmente no Mindelo, onde conheci o Mito.
Ao verem estes videos vão ver um conjunto de histórias que cada um pode ver e ouvir, de forma individual e diferente, mas não deixará também de sentir isso tudo e algo mais: um sentir subtil disto de sermos, cabo-verdianos ou cidadãos do mundo - aquilo que somos, que temos sido e aquilo que fomos e temos esquecido de ser... Um conjunto de alegrias e melodias, cores e sombras, vozes e espíritos... quase não virtuais, quase viscerais ....
Mito, esta mostra de video é uma brisa a passar bem no fundo da retina e se eu pudesse dar um título ao teu evento, para além do teu muito aquático e corpóreo “fishboneye” chamar-lo-ia:
Uma brisa na retina – do fascínio pelo cinema ao som do olhar !
E agora, façam o favor de verem os videos – e que fiquem tão fascinados quanto eu!!!!!
Paula Vasconcelos - S.Vicente, 17 Janeiro 2007
Comentários
de Imprensa
Agradecimentos : Câmara
Municipal de S.Vicente, Paula Vasconcelos.

Sonora, fonética & virtuália.
Outras formas de ver e ouvir sob o mantra de FishBonEye
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FishBonEye
Nome repescado de um poema sonoro dedicado à música do compositor Vasco Martins. Uma coletânea de vídeos, como o propósito de antologiar alguns afectos que me estimulam o Calamus criativo.
A Sessão teve lugar no dia 18 de Janeiro de 2008, no salão
nobre da Câmara de S.Vicente, por ocasião das festas do Município.
Apresentação de ”Fishboneye”
O Mito pediu-me subita e corajosamente que eu fizesse a apresentação
deste seu evento... Quem o conhece sabe que as ideias fixas do Mito têm
movimento.... Conseguiu que num exercício rápido eu pudesse
dizer que sim, que me atreveria a escrever – não tanto falar
- sobre estes seus trabalhos.
Devo dizer que quem conhece o artista, não vai estranhar este conjunto de videos que o Mito apresenta hoje. Para quem o está a conhecer pela primeira vez é preciso lembrar que este pintor nascido na Praia em 1965 é um artista da imagem, um guardador quase compulsivo de instantes, procurando no labirito da memória visual e virtual uma lógica, mesmo que ilógica ou surrealista. É um pintor apaixonado pelo cinema que tem vivido a pintura como um pano de fundo permanente de outras artes.