"I'm just myself, that's the only way
You're going to win in the end anyway.
Just sit down and be you."

Horace Silver

 

The Cape Verdean Blues - performance visual de Mito - surge como homenagem à obra e personalidade de um dos nomes internacionais do Jazz cuja obra constitui um inquestionável manifesto em defesa dos princípios do humor, celebração e identidade aplicados à expressão artística e musical.

"I've been myself my whole life" - inúmeras vezes por ele proferida, a afirmação poderia seguramente constituir mote para mais uma das incontornáveis melodias de Horace Ward Martin Tavares Silva, o autor desse eterno "Cape Verdean Blues" onde a estratégia compositiva assenta na busca renovada de uma sonoridade que se diz plural, nascida de uma assinatura onde se encontram distintas raízes identitárias. Descendente de afro-americanos e filho de pai Caboverdiano, é desse fenómeno cultural de crioulização que nos fala Horace Silver sempre que escutamos as mesclas do seu piano hard bop numa música onde se cruzam referências às tradições rítimicas e melódicas de Cabo Verde.

Por via do sangue se faz, assim, a descoberta do som em Horace Silver e pelo traço identitário recomeça sempre a aventura plástica do Mito, que nest'a blue note 4 HS renova alguns dos desafios essenciais presentes ao longo do seu percurso plástico e criativo: a constituição de uma obra em jeito de mapa onde se cruzam inscrições literárias e elementos oriundos da tradição literária e oral, fragmentos do quotidiano com música e poesia, espelhando uma natureza globalizada desde a origem. Tanto em pintura quanto na sua vertente vídeo, a pesquisa do autor celebra desde sempre um idioma plástico onde mancha e traço, cor e contorno se fundem e (in)definem para fazer nascer as águas de Mare Calamus, território pessoal de metáforas e toadas crioulas.

Assim sendo, o princípio da mestiçagem sonora que eterniza a música de Horace Silver encontra um paralelo nas telas deste outro The Cape Verdean Blues cuja estrutura expositiva apresenta dois "territórios cromáticos" ligados entre si. Criando um contraponto entre os dois conjuntos de telas azuis e ocres, uma obra há onde a identidade cruzada de um peixe-homem-ave (Pet Serenade) subsiste ainda e sempre por entre céu, terra e água.

A par dela, o vídeo-poema (a blue note 4 HS) apresenta-se como ponte experimental para uma outra face do seu trabalho baseado na pesquisa e junção do som e imagem. Nesta breve composição Mito retoma a utilização do sépia - suporte cromático de muitas das suas pinturas - para trabalhar as marcas imemoriais e, por vezes, quase que fotográficas, do som descoberto por Horace Silver. Fragmentos de "Song For My Father", "Pretty Eyes" e "Cape Verdean Blues" acompanham-nos desafiando a escuta e o olhar numa trajectória guiada à imaginação dos mil caminhos da cultura crioula. Seguindo até ao lugar onde a memória de água pode ter som de piano líquido.


MAFALDA SERRANO


- continua

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