Este espaço traça um balanço do percurso trilhado pelo artista ao longo de duas décadas.


"O melhor o tempo esconde, longe, muito longe
Mas bem dentro aqui ..."

Caetano Veloso - Trilhos Urbanos


Mito: prolixo e dialéctico

Agradeço a Mito a oportunidade e o privilégio de poder abrir este art-in-process, que, sem dúvida, acrescenta mais brilho à sua meteórica carreira artista e ao seu invejável portfolio de homem de cultura.

Em meados dos anos oitenta, tive a ventura de vivenciar o processo criativo deste que é, em toda a linha e com proprieda-de, o mais prolixo e dialéctico plástico cabo-verdiano. Mito, desse tempo, já recusava o óbvio preconizado pelo Manifesto de Praga e contornava o must proposto pelo Modernismo etnocêntrico, um pouco pelos grandes centros mundiais. Antropofágico, ele jogava nas telas suas múltiplas energias e mesclava os elementos, à guisa de um bricolage intercepcionista. A arte de Mito tinha átomos à flor da pele e implodia dos mais recônditos anéis cores e sons, letras e outras grafias, matérias, por que tudo era e continua a ser matéria em determinada frequência. Além disso, os quadros de Mito se comportavam de um jeito quando são observadas e de outro quando não são. Dir-se-iam particulas imprevisíveis e com vida própria...

Desse tempo transitivo e de bloqueio, Mito ousou também a folhinha cultural, que tanto melindre provocou ao então establishment, Sopinha de Alfabeto, com versiprosas, cartoons e short stories, elemento cultura que ainda aguarda apreciação descomplexada e de justiça por parte da nossa comunidade crítica. Desse tempo, dizia eu, Mito já era imenso e incómodo, perfeita e absolutamente fora da moldura. Ou se quisermos, demasiado substantivo para ser peça do puzzle. Um homem que declamava nos cafés versos de Jim Morrison e discutia as linhas de ruptura de Charlie Parker. Demasiado substantivo, repito.

Mito é um artista sofisticado, ousado e original. Detentor da sua própria linha, o traço de Mito suscita uma leitura dialéctica pelo universo da plástica, da estilística e do som. O Belo que Mito nos propõe, não o sabemos se é do som das cores ou das cores do som. Como artista, a ambiguidade é o seu apanágio. Et pour cause, do rítmo, da melodia, em suma da harmonia. Talvez por isso, por essa sombra imperceptível entre a tela e a partitura, que a tecitura de Mito se revela diferente, irreverente e referente.

Filinto Silva - Praia, Junho de 2003

 

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