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O conceito de desdobragem na manipulação das figuras plásticas apresenta-se como um dos mais importantes episódios da imagem contemporânea. A razão imediata desta ruptura reside na reavaliação do próprio conceito de arte - e de aura do objecto artístico -, para além de estender o debate ao campo da função e estatuto de obras e autores de arte. Para além da inovação no campo dos modos de produção artística, a recente arte digital implica ainda o desafio da pluralização e da interacção - agora restabelecidas - entre arte e tecnologia. Trata-se de averiguar as condições e modos de difusão de um novo paradigma do conhecimento; dotando-o de uma ideologia já não apenas históricamente moderna, mas predominantemente actual.

Tal como a pintura, a arte digital possui uma dimensão estruturalmente icónica: na medida em que se gera por referência à realidade de onde parte e à qual regressa, aí se reinscrevendo objectualmente e implicando novos códigos para o exercício perceptivo. Do concreto retira - e nele reinsere - tempos, espaços e elementos de espanto, estranheza ou (dis)semelhança, testemunhando as marcas de uma outra etapa da manualidade mediada que fora antecedida pela objectiva do corte fotográfico. Possui, no entanto, um outro devir, engendrado in-process.

As obras de pintura virtual do Mito propõem-nos, assim, um primeiro desafio esboçado desde a raíz da própria gestação pictórica, ao assumirem a mais pura grafia, rítmica e linear, do desenho como ponto de partida. Tanto pelo seu carácter ontologicamente objectivo e material, como pelos seus conteúdos de envolvência psicológica, (já que recompõem matrizes de uma escrita de tipo automático longamente in-formada pelo autor) estas imagens são agora transfiguradas pela acção da própria história das técnicas do humano, ela própria portadora de imaginário colectivo, humano e social. Simbolizando e des-localizando, o autor concebe uma multiplicidade de novos artefactos da visibilidade que cumprem um primeiro momento de viragem no seu projecto radical de pesquisa da plasticidade do visível. Mito virtualiza a imagem intensificando cor e abstractizando forma; intensificando-a, congela-a, agora, sob o gel do ecran. Para depois nela arquitectar anima.

Ao conjugar invenção visual e movimento - por aproximação à lógica cinematográfica -, o artista sugere-nos ainda um outro exercício de desdobramento do real. Através da encenação configurada do gesto e do corpo, cada figura virtual assume pose e é re-apresentação e re-acção espacio-temporal, espelhando paralelos ao nosso próprio estar e desenrolar no mundo. Mito desafia o próprio alcance da nossa mão, invertendo os códigos tradicionais de recepção da imagem, tornando-nos agentes da sua própria destinação. Engenhosamente configurando, tal como o faz na pintura e na fotografia, o seu projecto de (des)montagem de comuns memórias e conhecimentos apela à participação activa e conjugada de máquina e sujeito interpretante. Connosco joga aos demiurgos, e nos familiariza agora aos seus eternos gestos de deslocar aforismos, referentes estéticos ou surrealizar movências rituais. Agindo em suporte digital, o autor inicia uma nova dimensão de pesquisa ao intensificar agora dramáticamente - por vezes, em jeito de revisão dadaísta - cada fotograma vinda do génese da imagem. Ao fazê-lo, Mito inova ao dota-la de uma nova vocação de abismo - na qual a imagem agora existe em dimensão espacial não-euclidiana -, e espelhamento - por recurso à metáfora da antropomorfização de organismos recém-chegados do nível supra-espacial do inconsciente singular ou colectivo.

A imagem intocável e virtualizada derivou animicamente de um modelo material. Pressentimos nela a génese da pintura, o arquétipo da presença da mão, a nostalgia da pele. Coexistem traço e movimento de derrapagem remetendo-nos ao panic criado pela acção da luz que por vezes esculpe, fotografando no espaço, o próprio deslocar do tempo. Nestas obras, Mito deixa em aberto a proposta de uma outra leitura de toda a poética de lanterna mágica expressionista, ao virtualmente expôr rostos e cenários de estranhamento, ritual ou prefiguração - enredos ou metamorfoses próprios de uma nova utilização retórica da imagem.

 


Mafalda Serrano

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