Aproximando a arte e o gesto à sua raíz ritual de origem, este modo de fazer imagens é ontológicamente sistémico. Testemunhando episódios de um processo global de resgate, cada quadro é episódio de devir plástico e cultural. Actor e demiurgo, o autor potencia assim a dimensão constitutiva da identidade humana. Fá-lo circunscrevendo ou desaguando cor e forma, inscrevendo naturezas e destinos outros, sempre nascidos da alma ou da terra. Num primeiro plano, estas pinturas são, portanto, arquétipos de mapa ou geometrias trazidas do sonho que se fazem porto e pontos de vigia. Da ancoragem ou extensão do existir colectivo.

Num segundo tempo, cada figura é porque nasce dessa primeira fusão plástica de palavra e signo da visibilidade. Sobre aguada, ela é personagem-ícone, corpo e traço de nomes ou silêncios: observa-nos como agente do espelhamento e reorganização da nossa experiência e formas de vida. Estranha-nos para familiarizar-nos, depois.
O trabalho de Mito radica a pintura no puro gesto de arquitectar inscrevendo espaços por entre suspensões rítmica de tempos. Ele age religando identidades fragmentárias, pintando e desenvolvendo uma re-apresentação do real que assenta no duplo mecanismo de fabricação e descoberta dos imaginários e citações do real que a tela - por fim -, abarca.. Assim sendo, ele direcciona a face da imagem para o exercício de (des)construção de testemunhos e reconquista da identidade.
Auto-implicando-se no seu trabalho de experimentação expressiva, o autor da imagem revela as marcas físicas do seu trajecto pessoal de vivência e partilha. Silêncio e musicalidade pulsam nesta prática visual de junção e ruptura, ressoando ritmos desde o lado de dentro da própria pintura. Mito descerra uma nova etapa da metáfora albertiana porque a sua pintura é janela aberta sobre a natureza tocante do imaginado e do visível.


Mafalda Serrano

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