A condição do Homem traduz-se na sua invenção de modos de fazer mundos. Construindo naturezas sobre as geografias reais do visível, ou criando - e ousando resgatar sobre o plasma do sonho -, universos plurais de dimensão mutante e metafórica.

Na raíz desse eterno gesto de (des)codificar compondo, de religar nomeando, reside o princípio de libertação e enunciação do tempo, o desenho do espelho que reflecte a nossa própria história. Neste processo de inscrição e narrativa, o gesto vai-se fazendo imagem porque é semente. Possibilita a constante invenção da arte e a in-formação de idiomas. Compõe culturas e desenrola trajectos sobre o arquipélago colectivo do inconsciente prometido.

Assumindo o elogio dessa vocação radical e humanista que visualmente formula e encena, prefigura e ficciona; um autor é demiurgo sempre que arquitecta naturezas plásticas. Ou ainda quando parte do grau zero da função simbólica e a conjuga ao suporte físico e pictórico que desde um nada se constrói e habita - reciclando suportes e linguagens para iluminar patamares insuspeitados da memória.
Nesta sequência, Mito pesquisa na arte um jogo de arqueologias e de duplos: re-equaciona imagens ancestrais, interiores e sígnicas, tanto quanto compõe novos sistemas de materialização de vida. Ele actualiza ontologias da constituição do conhecimento e da arte que reciprocamente se comunicam. Por vezes, deslocando e invertendo os referentes que nos devolvem uma nova leitura das verdades humanas. Cada uma destas obras é, então, imagem-acto; tela ou receptáculo, pretérito-presente de uma conjugação visual, rítmica e discursiva. Mas - por entre os recortes de um real fragmentário ou as aguadas de transcorrência e partilha -, é um projecto arquétipico e global que aqui ressurge e diante dos olhos se ritualiza. Sobre as superfícies desocultam-se vozes de manifestos e idiomas. São nomes de futurização das memórias, gerados de um entendimento da arte como arquipélago de convergência entre diferentes níveis e sínteses expressivas. Nestas imagens tempo e espaço se congelam ou animam, sociabilizando discursos, arte e vida. Criadas sobre tela, papel fotográfico, suporte virtual ou registo vídeo, as suas figuras ou geografias possuem sempre a intemporalidade de mil rostos porque sintetizam desempenhos em filigranas de coreografia. Olhá-las é habitá-las, viajar ao outro lado do espelho e daí iniciar a aventura de um mapa de possíveis. Talvez porque o Mito escolhe a liberdade do Ser como imagi-nave. Ou ponto de partida.


Mafalda Serrano


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FOTOGRAFIA
A fotografia parte do visível e a sua analogia histórica com a pintura reside no facto de apresentar-se, também ela, enquanto janela aberta para o mundo.

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PINTURA
Estas imagens oferecem ao observador trajectos de inscrição em diferentes quadros de vida.

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SOPINHA DE ALFABETO
Vêm aí de novo, reeditadas e, desta feita, electronicamente divulgadas, para conhecimento, consulta e consumo de todos os interessados, as páginas da revista Sopinha de Alfabeto.

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VIDEO
O autor questiona referentes e potenciais perceptivos ao jogar, animando e antropomorfizando as figuras geométricas de uma gestalt estruturante da nossa percepção do mundo.

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EXPOSIÇÕES
Por vezes buscamos nestes quadros algo que nos complete, outras, um lugar onde nos perdermos. Em ambas as hipóteses, sempre a mesma sede, a primeira sede de diálogo.

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O conceito de desdobragem na manipulação das figuras plásticas apresenta-se como um dos mais importantes episódios da imagem contemporânea.

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Apoios: Amélia Colaço, Filinto Silva, John Rosa, José Cunha, Lonha Heilmair, Mafalda Serrano.

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